quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Após CFC, desafio global é eliminar HCFC

Produção de clorofluorcarbonos, que caiu 99% em 12 anos, está proibida desde janeiro; meta agora é reduzir uso de gás alternativo

Fonte: PNUMA
Os CFCs
Alçados a vilão na década de 1970, os CFCs foram descobertos cerca de 40 anos antes, quando eram considerados bons substitutos da amônia em geladeiras e aparelhos de ar-condicionado, por absorverem melhor o calor.

Porém, nos anos 70 algumas pesquisas começaram a revelar que o cloro do gás reagia quimicamente com o ozônio da atmosfera, fazendo com que o este rareasse e perdesse sua função de escudo protetor contra a incidência direta dos raios ultravioleta — que podem causar câncer de pele e problemas oculares, como a catarata.
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DANIELLE BRANT
da PrimaPagina

Em tempos em que o debate ambiental é pautado pelas mudanças climáticas, uma conquista importante passou praticamente despercebida: o fim , em 1º de janeiro, da produção de CFCs (sigla para clorofluorcarbonos) pelos 196 países que assinaram o Protocolo de Montreal, criado para controlar as emissões de substâncias que destroem a camada de ozônio da Terra.

A data é um marco de um processo que começou com a assinatura do acordo, em 1987. A produção desses gases caiu 99,7% entre o ano anterior ao protocolo, 1986, e 2008: de 1,07 milhão de toneladas para 2.746, de acordo com dados do PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente). A queda ocorreu nos dois grupos de países criados pelo protocolo: os que tinham consumo inferior a 300 gramas por habitante (geralmente nações em desenvolvimento) e os que tinham consumo superior a esse patamar.

No primeiro caso, a redução foi de 115.161,6 toneladas (no pico de 1995) para 2.583,6 toneladas — um recuo de 97,75%, auxiliado por um fundo multilateral que ajuda as nações mais pobres a fazerem a conversão de clorofluorcarbonos a um gás menos poluente. No grupo dos países que mais emitiam CFCs, a diminuição foi de 1,01 milhão de toneladas, em 1986, até as 162,4 toneladas de 2008, ou seja, uma redução de 99,98%.

O desafio, agora, é concentra-se em outro tipo de gás prejudicial à atmosfera, os HCFCs (hidroclorofluorcarbonos), também usados como fluido de refrigeração para geladeiras e aparelhos de ar condicionado. Estes surgiram como alternativa aos CFCs, já que têm uma capacidade 90% menor de destruir a camada de ozônio, por conterem hidrogênio em sua composição, o que muda as propriedades da substância, explica o oficial de projetos do PNUD, Ruy de Goes. "Porém, estes elementos continuam agredindo a atmosfera, ainda que em menor escala”, afirma. “E são supergases de efeito estufa, ou seja, têm potencial altíssimo para aumentar o aquecimento global", acrescenta.

A meta do Protocolo é abolir os HCFCs até 2040 nos países signatários do acordo, gradativamente. Até 2013, cada país poderá liberar a quantidade que quiser de HCFCs, mas, a partir de então, precisa voltar ao patamar médio de 2009/2010. Em 2015 será aplicado um corte de 10% sobre esse patamar médio, e a previsão é que somente um valor residual persista em 2030, o que facilita a eliminação total da produção até 2040.

Os países em desenvolvimento que precisarem fazer a conversão de tecnologia poderão recorrer ao fundo multilateral do Protocolo de Montreal. Esse dinheiro é transferido aos governos, que repassam a uma agência implementadora (caso do PNUD), responsável por liberar a verba para projetos que auxiliem as indústrias nacionais a fazerem a transição.

Muitas fabricantes já utilizam, em seus produtos, gases que não agridem a camada de ozônio nem intensificam o aquecimento global — como isobutano ou ciclopentano, hidrocarbonetos usados na espuma que faz a proteção térmica dos refrigeradores ou ar condicionados. "O único problema é que estes gases são inflamáveis, de uma família próxima ao gás de cozinha", afirma Ruy de Goes.

Plano Nacional de Eliminação dos CFCs

No Brasil, as alternativas aos clorofluorcabonos passaram a ser mais usadas a partir de 1999, quando foi proibido o uso dos CFCs como fluido refrigerador de geladeiras e ar condicionados. O gás continuou sendo importado até 2006 pelo setor de serviços, e até o ano passado pelo de saúde.

Para eliminar totalmente a substância, o governo federal lançou o Plano Nacional de Eliminação dos CFCs, com 16 projetos. Um deles já treinou técnicos em refrigeração, oficiais de alfândega e funcionários do IBAMA para evitarem liberação dos gases poluentes durante a manutenção de geladeiras ou equipamentos de ar condicionado mais antigos, que ainda usam os clorofluorcabonos.

Um projeto chamado Recolhedoras já distribuiu 2 mil máquinas coletoras de gases, contabiliza Tatiana Zanette, analista ambiental da Coordenação de Proteção da Camada de Ozônio do Ministério do Meio Ambiente.

Foram criadas no Brasil quatro centrais de regeneração (duas em São Paulo, uma no Rio de Janeiro e uma no Recife), e uma quinta será inaugurada até o fim deste ano no Rio Grande do Sul. Além disso, a intenção é criar 120 unidades de reciclagem em municípios não atendidos pelas centrais. A seleção das empresas que poderão receber os equipamentos para reciclar os gases será feita pelo PNUD.

Empresas terão apoio contra gás poluente

Pequenos e médios fabricantes serão incentivados a trocar HCFC por alternativa que não afete camada de ozônio nem agrave aquecimento

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DANIELLE BRANT
da PrimaPagina

As pequenas e médias empresas brasileiras terão consultoria para eliminar de seu processo produtivo os hidroclorofluorcarbonos (HCFCs). Usados por fabricantes de espumas, de solventes, aparelhos de ar-condicionado, geladeiras e extintores de incêndio, esses gases destroem a camada de ozônio da Terra e agravam as mudanças climáticas. Desde o final da década de 80, período em que têm substituído os clorofluorcarbonos (CFCs), seu uso aumentou sete vezes no Brasil, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente.

O apoio será dado por meio de um programa do Ministério do Meio Ambiente e do PNUD. Como se trata de um amplo espectro de empresas, está sendo feita uma série de reuniões com entidades do setor, como a Associação Brasileira da Indústria Química e a Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres, para que elas transmitam a seus associados as linhas gerais dos projetos serão desenvolvidos.

Um destes encontros acontece nesta segunda-feira (8), em São Paulo, e explicará a empresas de sistema e distribuidores — que fabricam produtos de poliuretanos e fornecem para pequenas e médias empresas — como serão constituídos os chamados "projetos guarda-chuva", como explica Ruy de Goes, oficial de projetos do PNUD no Brasil.

O nome "projetos guarda-chuva" remete a uma célula-mãe com várias células-filhas sobre sua proteção, e é mais ou menos assim que vai funcionar este esquema. Nele, as casas de sistema e distribuidores vão agrupar clientes, e será elaborado um único projeto de conversão para atender estas firmas menores.

“A reunião será para tentar engajar as casas de sistema e distribuidores no processo de incentivar clientes a responder, até o fim de março, aos questionários sobre quanto HFCFs utilizam na produção de equipamentos, entre outros dados", afirma Goes. A ideia é fazer um levantamento de quantas empresas seriam atendidas e da quantidade de gás consumido.

As informações serão, então, remetidas ao grupo que coordena o Protocolo de Montreal, assinado em 1987 com a meta de controlar as emissões de substâncias que destroem a camada de ozônio. O resultado consolidado deve sair até o segundo semestre.

Para as grandes indústrias serão realizados projetos individuais. Cada programa, tanto para empresas de menor quanto para as de maior porte, deverá ter um consultor do PNUD para acompanhar a conversão. "Sempre que possível tentaremos colocar um consultor para cada empresa, para acompanhar caso a caso. E todo o processo, desde a inscrição até a conversão, é gratuito", destaca Goes.

Os projetos serão financiados com o dinheiro proveniente de um fundo multilateral do Protocolo de Montreal, que reúne os recursos fornecidos pelos maiores emissores mundiais de gases que degradam a camada de ozônio. O dinheiro será destinado à compra de máquinas novas que não utilizem hidroclorofluorcarbonos na produção, em troca da destruição do equipamento antigo.

"A intenção é trocar os HCFCs por hidrocarbonetos, que não destroem a camada de ozônio nem aumentam o aquecimento global", explica o oficial de projetos do PNUD. Mas isso, ressalta, vai exigir a adoção de medidas de segurança, por se tratar de um gás inflamável.

Ainda falta definir como será feito o repasse, a relação dólares-quilo de hidroclorofluorcarbonos eliminado, a data de corte das empresas (firmas fundadas a partir de que ano poderão participar), entre outras coisas, diz Ruy de Goes.

Com requisitos, política social pode excluir

Especialista analisa programas de transferência de renda da América Latina e diz que muitas exigências podem prejudicar os mais pobres

Governo do Piauí/Divulgação
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DANIELLE BRANT
da PrimaPagina

O excesso de requisitos dos programas de transferência de renda pode distorcer o objetivo principal dessas iniciativas, que é combater a pobreza, afirma um estudo publicado pelo CIP-CI (Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo), um órgão do PNUD em parceria com o governo brasileiro. O risco maior, frisa o texto, é que as famílias que não têm recursos nem condições para atender as exigências acabem ficando de fora.

A estrutura desses programas e seu monitoramento “precisam minimizar os riscos de exclusão”, defende o estudo, intitulado De uma rede de proteção social para uma política social? e escrito pela pesquisadora italiana Francesca Bastagli, da London School of Economics and Political Science.

"Impor condições pode excluir famílias pobres quando a participação está sujeita ao cumprimento e quando o descumprimento leva à suspensão automática dos benefícios pagos", afirma. "Valores limitados de benefícios, um público-alvo muito restrito e condições punitivas" acabam distorcendo a finalidade das iniciativas, que é combater a pobreza, ressalta.

Francesca analisa programas sociais de seis países latino-americanos (Brasil, Colômbia, Chile, México, Honduras e Nicarágua). Entre os projetos analisados está o Bolsa Família, que é o único caso entre os seis em que o critério principal para cadastro é a renda declarada pela família — são atendidos domicílios com renda mensal de até R$ 70 por pessoa. Nos outros, há alguma outra condição.

No próprio Bolsa Família, os lares com renda per capita de R$ 70 a até R$ 140 só são beneficiados se houver criança ou adolescente de 0 a 17 anos. Já no Chile é preciso cumprir 53 condições para ter acesso ao programa Puente – Chile Solidario. Isso, na opinião de Bastagli, restringe o atendimento de quem precisa.

As condições impostas pelos programas para continuar oferecendo o auxílio são um fator que também precisa ser avaliado com cuidado, segundo a pesquisadora. Enquanto no Brasil se a família descumprir as exigências (frequência escolar mínima para crianças e adolescentes, acompanhamento da vacinação de crianças até 7 anos, entre outras) as autoridades primeiro fazem um trabalho de assistência social, procurando saber o que está acontecendo, no Chile deixar de atender às condições implica suspensão automática do programa.

Francesca também destaca que a estrutura dos programas de transferência de renda são uma boa oportunidade para os países desenvolverem políticas sociais integradas. Segundo ela, a grande problemática que estas iniciativas enfrentam é como fazer a transição de uma rede de proteção mínima para uma política social inclusiva.

'É hora de implantar as políticas pró-ODM'

Faltando cinco anos para a data limite dos Objetivos do Milênio, é preciso pensar na implementação de projetos, diz economista

UN Photo/Fardin Waezi
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Faltando cinco anos para 2015 e, portando, para a data limite de cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), é importante concentrar-se na implementação — mais que na elaboração — de políticas públicas para alcançar as metas. É o que defende o economista Selim Jahan, do PNUD, em artigo para o mais recente número da revista Poverty in Focus, uma publicação do CIP-IG(Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo), órgão do PNUD em parceria com o governo brasileiro.

“Será imensamente importante [saber] se os ODM foram adequadamente dimensionados para o contexto de cada país”, escreve o economista. Também será crucial verificar se os Objetivos do Milênio fazem parte de um plano nacional de desenvolvimento ou de combate à pobreza, se os recursos e capacidades para alcançá-los foram assegurados.

A experiência até agora mostra, avalia Jahan, que é necessário adaptar os programas aos contextos locais. “O mesmo tanto de recursos produziu resultados expressivos em um contexto, mas não em outros. As mesmas políticas funcionaram em alguns países, mas não em outros”, observa. Assim, será necessário descobrir o que funcionou e por quê, e o que não funcionou e por quê.

Além disso, o grande número de crises pelos quais o mundo passou (de alimentos, energética, financeira) desde a assinatura do acordo, em 2000, deixou o cenário um pouco mais "opaco", avalia o economista. Muitos países estão com dificuldades em cumprir as metas, enquanto outros que estavam a caminho parecem ter saído dos trilhos. Nações mais desenvolvidas estão dando cada vez menos ajuda financeira para os mais pobres, e os mercados desenvolvidos não aumentaram a abertura aos produtos desses países.

Para readequar as estratégias para o período pós-2015, a principal meta será descobrir se os planos estão adequados para a realidade de cada país, bem como criar e manter programas de monitoramento e avaliação. Para Jahan, também devem ser discutidas novas maneiras de incentivar uma maior participação da sociedade civil, da iniciativa privada e de parceiros internacionais no processo de perseguição das metas. “É imperativo assegurar a formação de alianças em diferentes contextos, assim como identificar gargalos e fazer sugestões concretas sobre otimizar essa relação”, afirma.

Será também necessário pensar em formas para fazer com que esses programas continuem nos trilhos mesmo sobre a pressão de crises internacionais, bem como a discutir um mapa para o cumprimento dos ODM depois de 2015. Além disso, será preciso uma maior colaboração junto com o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional.

Vem aí greve geral dos trabalhadores depois do Carnaval

Zenir Teixeira, da CTB, disse que os trabalhadores deverão parar após o Carnaval.

As principais centrais sindicais do país deverão convocar uma greve geral dos trabalhadores pela redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais. O anúncio do movimento foi realizado ontem depois de o presidente da Câmara, deputado Michel Temer (PMDB-SP), fazer uma proposta alternativa a dos trabalhadores: reduzir de 44 para 42 horas semanais.

O diretor da Central dos Trabalhadores e das Trabalhadoras do Brasil (CTB), seção Paraná, Zenir Teixeira, disse que os trabalhadores não podem abrir mão da redução da jornada para 40 horas, sem redução salarial.

Segundo o dirigente da CTB, o acordo entre as seis centrais sindicais, de lutar pelas 40 horas semanais, deverá ser mantido. “Será intensificada a mobilização dos trabalhadores, após o Carnaval, para aprovar a medida”, adiantou Zenir.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

PESQUISAS... crer ou não crer, eis a questão...

Sociólogo de formação, Mauro Paulino, há mais de 20 anos vasculha e divulga anseios e intenções do eleitorado brasileiro. No instituto de pesquisa Datafolha, coordena a realização de pesquisas eleitorais desde 1988. Em entrevista a Terra Magazine, ele fala do "tabuleiro de xadrez" em que estão a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT), e o governador José Serra (PSDB-SP) no pleito presidencial de outubro.
- Comprovadamente Lula já está transferindo muitos votos para Dilma - diz. Ela é a "mulher forte do governo" e "já está em campanha". Serra é "um administrador muito bem avaliado" e "conhecido nacionalmente". Mas, para Paulino, a "peça chave" desse tabuleiro é o presidente Lula. "Os dois candidatos estarão com os olhos voltados para ele e o eleitorado, por sua vez, também", acrescenta.
- Do ponto de vista da ministra, Lula pode ser a peça chave para o bem e para o mal. Meu bem, meu mal (risos). (...) O contraste entre o carisma de Dilma e Lula pode fazer com que o eleitor não vote nela.
Leia abaixo a íntegra da entrevista:
Terra Magazine - Algumas pessoas questionam a legitimidade das pesquisas eleitorais. Como o Datafolha faz para evitar esse tipo de questionamento?
Mauro Paulino -
A pesquisa sempre é questionada, principalmente por quem se sente prejudicado, ou por quem não estava à frente, ou quem se vê ameaçado por uma candidatura ascendente. Mas a legitimidade das pesquisas se comprova pelo histórico do desempenho dos institutos, que é a base da credibilidade adquirida por cada um deles. Então, há os mais e menos questionados. Outro fator é o uso abundante de pesquisas pelos partidos políticos. Ou seja, se pesquisas não ajudassem e não fossem um instrumento eficaz, os partidos não gastariam tanto dinheiro comprando pesquisa.
O senhor acredita que as pessoas já tomaram conhecimento de que a ministra Dilma seja a candidata do presidente Lula?
Já há um conhecimento para lá de razoável da candidatura de Dilma. O Datafolha publicou um artigo no final do ano passado mostrando que ainda há 15% de eleitores afirmando que votariam em um candidato indicado por Lula, mas dizem não saber quem é esse candidato ainda. Então, isso dá uma dimensão do desconhecimento dela e do potencial de crescimento que tem a candidatura Dilma.
Qual o principal motivo do crescimento dela nas pesquisas? Isso é referente ao conhecimento que as pessoas têm dela ou ao fato de já saberem que ela dará continuidade ao trabalho de Lula? É uma questão mais política ou personalista?
São vários fatores ocorrendo simultaneamente. As pessoas vêm tomando conhecimento. O processo eleitoral hoje ainda é restrito às pessoas com mais informações, restrito às pessoas com taxa de escolaridade mais alta e pertencentes a um segmento menor da população. Na medida em que as pessoas com menos acesso à informação, com uma renda mais baixa - que formam a maior parte do eleitorado de Lula - forem tomando conhecimento da candidata Dilma e que Lula não pode ser candidato - porque ainda 20% vota nele na pesquisa espontânea -, teremos um panorama mais claro do potencial de votos dela. Porque quando essas pessoas tomarem conhecimento de Dilma como candidata de Lula, darão o apoio e a transferência de votos. Contudo, ela pode sofrer com a comparação com Lula.
Como assim?
O contraste entre o carisma de Dilma e Lula pode fazer com que o eleitor não vote nela. As pesquisas não têm como avaliar isso, mas acompanhar.
Sobre o carisma e a transferência de voto, o senhor acredita na transferência de votos de Lula para Dilma?
Lula tem uma penetração muito forte nos segmentos que relacionam os benefícios sociais à ação do governo federal. E também tem algo que é incomparável: o poder de comunicação, essa facilidade que ele tem de conquistar a simpatia desse segmento da população. Hoje ele é aprovado por maioria absoluta em todos os segmentos da sociedade, não só nessa camada. Isto nos permite afirmar que há potencial de crescimento em Dilma, mas que depende das comparações que o eleitor fará: Dilma e Serra, Dilma e Lula.
Apesar de registrar índice inédito de aprovação, a presidente do Chile, Michelle Bachelet, não elegeu um sucessor de sua legenda para o cargo. O Chile pode ser usado como um exemplo para o caso brasileiro?
São realidades muito diferentes. O quadro brasileiro é bem diferente do chileno.
O senhor acredita que o fato de os dois candidatos serem um pouco menos carismáticos, como o presidente eleito do PT, José Eduardo Dutra, já destacou, do que os antecessores tucano (FHC) e petista (Lula) no Planalto seja um fator que colabore para politizar a campanha?
O brasileiro está naturalmente refletindo mais sobre política em consequência do desenvolvimento da sua própria cultura nessa área. E ter uma eleição a cada dois anos ajuda muito. O eleitor vai se habituando ao voto e às consequências dele. Então, hoje, o eleitor pensa mais sobre seu voto, elabora melhor esse voto, de uma forma muito mais racional do que na primeira eleição a presidente em 1989, após a redemocratização. Ali, valia muito mais a paixão, a novidade... Nessa época, o marketing tinha um peso muito grande. Hoje, acho que o marketing político tem um peso menor e o eleitor toma suas decisões de forma mais pensada e mais autônoma, independente do carisma, que pesa, claro, mas a capacidade de administração tem sido muito valorizada. A conta que o eleitor faz é: "quem tem mais condições de resolver os nossos problemas imediatos".
O fato de a ministra Dilma nunca ter disputado uma eleição é melhor ou pior, tendo em vista que a política tem sido vista de maneira desconfiada após sucessivos escândalos de corrupção?
Mais do que não ter participado, o que beneficia Dilma é o fato de ela não estar no cenário político quando do Mensalão. Quando surgiram todas aquelas acusações de Mensalão, Dilma praticamente não existia para a maioria da população. Então, ela entrou em cena para substituir aquele que foi considerado o grande culpado, José Dirceu. E, a partir daí, a economia começou a melhorar também, ela passou a ser a figura mais forte do governo - afinal Lula sempre fez questão de deixar isso muito claro -, o país passou por uma crise mundial e saiu bem... Isso tudo é muito valorizado e anula a inexperiência. É claro que ela tem um caminho muito mais longo do que Serra para se tornar conhecida, mas isso é facilmente superado porque a coalizão do governo tem muito mais tempo de propaganda na televisão. E acho que o fato de ela nunca ter disputado um pleito acaba não pesando muito.
Observamos um crescimento da ministra e estabilidade do governador nas pesquisas. A que se deve essa estabilidade?
Serra tem uma ótima avaliação como governador de São Paulo, teve uma ótima avaliação como ministro, tem a imagem de ser um administrador competente e de quem resolve os problemas da saúde, que é hoje o principal problema do país apontado pelos eleitores. Então, ele tem todas essas vantagens e sai na frente por conta disso, também por ter disputado eleições anteriores e estar na lembrança do eleitorado como alguém com porte de candidato a presidente. Isto justifica a permanência dele na liderança das pesquisas. Mas o que tem sido mostrado é que há uma candidata em ascensão, Dilma, há um candidato com estabilidade, Serra, e Ciro Gomes (PSB) caindo.
O fator Ciro tem enfraquecido Dilma ou Serra?
As pesquisas mostram que, com Ciro na disputa, a diferença entre Serra e Dilma diminui. Sem ele, aumenta e Serra tem mais vantagens. Então, há uma boa parte que vota em Ciro aparentemente por não querer votar num candidato do PT.
Nas eleições de 1998, 2002 e 2006, quem liderava as pesquisas um ano antes acabou por vencer as eleições. O cenário de 2010 é previsível?
Essa eleição é muito mais imprevisível do que as quatro anteriores. É a primeira vez que não temos Lula como candidato, é primeira vez que há um cabo eleitoral com esse apoio popular que Lula tem. Estes fatores já tornam essa eleição diferente de todas as outras. Não se sabe como o eleitor vai reagir. Na verdade a peça chave dessa eleição é o próprio Lula e não sabemos como o eleitor vai lidar com esse fato. Lula não pode ser candidato e Dilma é a candidata dele contra Serra, que é comprovadamente um bom administrador. Como essa equação será resolvida pelo eleitorado? Não temos como prever.
O senhor disse que a peça chave dessa eleição é Lula...
Os dois candidatos estarão com os olhos voltados para Lula e o eleitorado, por sua vez, também. Ele tem um governo com uma taxa de aprovação inédita e o peso que isso terá nesse pleito já está sendo demonstrado. Comprovadamente ele já está transferindo muitos votos para Dilma. Agora, qual é o teto disso e até que ponto isso tira votos de Serra? Não sabemos. Mas a eleição vai girar em torno de Lula, por isso que ele é a peça chave. Do ponto de vista de Dilma, pode ser a peça chave para o bem e para o mal. Meu bem, meu mal (risos).
Como o senhor avalia a tática petista de polarização? Uns defendem que ela é boa para Dilma, outros, para Serra, e há aqueles que afirmam não ser bom para o eleitorado...
A polarização é inevitável, não tem como fugir. A meu ver, para o bem da democracia, é bom que haja muitos pontos de vista sendo discutidos. O segundo turno existe para que haja essa polarização, mas, no primeiro, quanto mais candidatos expuserem suas ideias, melhor para o desenvolvimento da cultura política do brasileiro.
E o que o senhor acha da comparação entre Lula e FHC?
É inevitável também. Não consigo imaginar a campanha sem essa comparação. O marketing político vive dessas comparações, de tentar jogar o bem contra o mal. Não tem como fugir disso, mas espero que não fique só nisso. É saudável que existam candidatos como Marina Silva, por exemplo, que traz o tema do meio ambiente. Seria importante que houvesse mais candidatos trazendo outros temas para que o debate fosse mais rico.
Voltando à temática da polarização, alguns tucanos defendem que Serra ganha com ela por ter mais experiência em processos eleitorais.
A campanha começa de fato para o total do eleitorado a partir de março, abril, quando as candidaturas estão oficializadas e começam as entrevistas. Aí, o desempenho de cada um pesará e pode ser, então, que a experiência de Serra seja decisiva. Mas não dá para saber como será o desempenho de Dilma, que ainda não foi vista em debate, ou em uma entrevista mais incisiva.
O fato de o PSDB não ter determinado seu candidato influencia em que medida o desempenho de José Serra nas pesquisas?
A consequência disso é só existir uma pessoa fazendo campanha abertamente: Dilma Rousseff.
Mas Serra é muito bem avaliado em São Paulo e Dilma corre a passos largos em direção à liderança nas campanhas eleitorais... Equação complexa...
Mas esse é o grande dilema do PSDB e do Serra. Não será uma eleição presidencial fácil e isso já está mais do que comprovado. Além disto, o tempo na televisão é muito importante e o PT fez alianças que dão a ele quase o dobro do tempo que tem o PSDB. Por outro lado, se Serra desistir, deixa praticamente entregue a eleição para o PT. Por quanto tempo mais o PT vai permanecer no poder? Porque, em 2014, Lula volta como candidato. Serra é o candidato mais forte do PSDB, pelo menos é o que tem o caminho mais curto. Aécio Neves (governador de Minas Gerais) teria que conquistar São Paulo e isso não é tarefa fácil. Enquanto Serra já é figura nacional por já ter participado de eleições presidenciais e por ter sido ministro da Saúde. É um tabuleiro de xadrez.
Terra Magazine

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Fórum Social Mundial - Porto Alegre, 2010.

No ano de 2001, portanto 10 anos se passaram, ocorreu o primeiro Fórum Social Mundial.
A nova edição do evento semana passada em Porto Alegre, serviu ou deveria servir também como uma avaliação, correção de rumos e indicação da sequência do mesmo.
Como observador, estive presente nesta edição do FSM.
Primeiro abordo a questão do local, da cidade. Parece mesmo que este evento “tem a cara” de Porto Alegre e vice-versa. Não sei se porque o primeiro realizou-se aqui, portanto a cidade se sente meio mãe, criadora, ou pela característica “politizada” de seus cidadãos, mas como disse, sente-se que a capital gaúcha “pulsa” o Fórum.
De uma hospitalidade excepcional, o porto-alegrense recebe o “diferente” de maneira diria até que solidária.
Evidente que empresários, especialmente do ramo de hotelaria, com uma visão “burra”, atrasada, oferecem péssimos serviços, deploráveis até, mas aproveitam o período para “esfolarem” o visitante.
É o caso por exemplo do Hotel Elevado, onde este pobre vivente penou por quatro noites e cinco dias.
Já o transporte coletivo, os taxistas, garçons, comerciários e população em geral, dão um tratamento ao Fórum e seus participantes que pode ser considerado VIP.
Na verdade, a realização do Fórum é um excelente negócio para a cidade, agita culturalmente, promove intercâmbio cosmopolita e gera divisas.
Outro aspecto interessante de Porto Alegre é seu trânsito. Curioso, apesar do aspecto caótico. Os ônibus não andam lotados, não ocorrem engarrafamentos, respeita-se o pedestre e flui naturalmente. Seria educação dos motoristas, seriam os viadutos? Bem, não sei, fato que “anda”.
Desta vez o evento foi descentralizado. Paralelamente ocorriam atividades nas cidades da região metropolitana.
Apesar de não Ter acompanhado, sento dos participantes, uma aprovação a iniciativa.
Houve também uma certa confusão, pois o evento que deveria ser para avaliação, organizações se mobilizaram, trouxeram militantes, deixando no ar um caráter meio confuso.
Forças políticas, partidos centrais, “correntes”, ONG’s de todo gênero marcaram posição.
No terreno sindical destacaram-se a CTB (Central dos Trabalhadores do Brasil) e a UGT (União Geral dos Trabalhadores). A outrora “combativa” CUT (Central Única dos Trabalhadores) amarelada, compareceu timidamente.
No aspecto do debate, nota-se claramente a busca por uma reorientação, um passo à frente, a necessidade de se criar novas pontes, mais maduras, entre os governos e os movimentos sociais.
Considera-se que há espaço para essas alternativas que tem que ser ocupadas.
Hoje pode ocorrer convergências que interessam aos “dois lados”.
Por suas características, num balanço final, os articuladores do evento consideram positivo os resultados.
De toda forma, a luta continua, para mostrar que “um novo mundo é possível...”

Paulo Aguilera – POA 29/01/2010

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Movimentos sociais lançam bases de plataforma para eleições 2010

Os movimentos sociais aprovaram um documento com pelo menos50 propostas, que devem ser consolidadas em uma plataforma para as eleições. Os itens voltam a ser discutidos em uma grande reunião, em São Paulo, no dia 31 de maio.

Depois de uma semana de discussões, a Carta da Assembleia dos Movimentos Populares marca o encerramento do fórum, evento que reuniu35 mil pessoas na capital gaúcha e em cinco cidades da região metropolitana, em mais de 900 atividades.

O documento contempla propostas em favor da reforma agrária, da garantia dos direitos sociais, do direito à comunicação, contra a instalação de bases militares na América Latina e contra políticas neoliberalistas. O enfrentamento ao racismo também é um dos destaques do texto.

A consolidação de propostas é o principal destaque desta edição do FSM, na avaliação da Central Única dos Trabalhadores (CUT). As centrais sindicais também vão aproveitar a carta da assembleia para construir uma plataforma para eleições e voltam a se reunir em 1º de junho, em São Paulo.

“Saímos daqui com a consciência de que precisamos ser mais propositivos. Chega de fazer diagnóstico. Nosso diagnóstico foi concluído com a crise financeira, os próximos fóruns precisam dizer o que precisar ser feito daqui para frente”, afirmou o diretor da CUT, Quintino Severo.

A representante da União Brasileira de Mulheres, Lúcia Stumpf, disse que o fórum ainda não conseguiu “captar as transformações da sociedade” em relação ao feminismo. Ela afirmou ainda que é preciso avançar em relação a uma maior participação de mulheres nas mesas de debate.“A conquista de uma sociedade livre do machismo, do racismo, da homofobia é uma conquista que vamos conseguir passo a passo, mesmo em espaços avançados como são os fóruns”, afirmou ao comentar o percentual de 60% de mulheres entre os participantes.

Integrante da Federação Única dos Petroleiros Antonio Carlos Spis esclareceu que a carta ainda precisa ser mais debatida antes da consolidação de uma plataforma, que também incorporará propostas do Fórum Social Temático da Bahia, que começa hoje, com caráter governamental.

“O fórum é um movimento sempre crítico, amplo, com mais de mil entidades. O importante é encontrar consensos, respeitar as posições e construir unidade”, destacou.

As informações são da Agência Brasil

Remédio para Chagas será testado em 2010

Novo medicamento é visto como uma das maiores descobertas contra a doença em 40 anos; teste em humanos poderá ser feito no Brasil

Prefeitura de Ibiporã/Divulgação
MARCELO OSAKABE
da PrimaPagina

Um novo medicamento para o tratamento da doença de Chagas começará a ser testado em seres humanos a partir deste ano. Chamada Ravuconazol, a droga até agora mostrou bastante eficácia em impedir a multiplicação e invasão das células pelo protozoário Trypanosoma cruzi, causador da enfermidade.

Segundo Tânia Araújo Jorge, pesquisadora e diretora do Instituto Oswaldo Cruz, esta é uma das novidades mais promissoras no tratamento contra a doença, que mata cerca de 11 mil pessoas por ano segundo a OMS, mais do que a malária. No Brasil, foram 5.023 mortes em 2008, de acordo com dados preliminares do Ministério da Saúde — mais que malária e tuberculose, por exemplo. “De todos os medicamentos em fase pré-clinicas, esse é um dos melhores", afirma Tânia.

O motivo do otimismo está no fato de o Ravuconazol ter se mostrado eficaz no segundo estágio da doença, a chamada fase crônica. Os outros dois medicamentos existentes, descobertos há mais de 30 anos, não são muito eficientes nesse estágio, sendo mais aconselhados para a primeira fase da doença. O problema é que apenas 1% das pessoas apresentam sintomas na primeira fase, o que dificulta o tratamento. Além disso, a nova droga mostrou ser efetiva contra todas as cepas do parasita —ao contrário dos outros —, além de ser bem menos invasivo ao organismo humano. Atualmente, só há um medicamento que age na fase crônica, e ele causa muitos efeitos colaterais, como enjoo, alergia e problemas na medula óssea.

O Ravuconazol é um medicamento desenvolvido pela farmacêutica Eisai. A indústria japonesa fez uma parceria com a DNDi (Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas, na sigla em inglês) e cedeu para a entidade o direito de conduzir testes em seres humanos. Segundo o coordenador de comunicação da DNDi no Brasil, Flávio Guilherme Pontes, a Iniciativa está contatando centros de pesquisas nos 21 países da América Latina onde a doença é endêmica para começar os testes. A expectativa é de que até o meio do ano eles já tenham começado; há possibilidade de que o Instituto Oswaldo Cruz participe dos testes.

"Os testes costumam durar cerca de dois anos. Não se tem uma data certa para finalização dos testes, mas acredita-se que até 2014 o medicamento já esteja disponível para uso para todos os países endêmicos", diz. O remédio então deverá ser vendido a preço de custo para governos e ONGs que trabalham com a doença.

A DNDi é uma iniciativa de pesquisa e desenvolvimento de medicamentos fundada em 2003, envolvendo sete entidades: Fundação Oswaldo Cruz do Brasil, Conselho Indiano de Pesquisa Médica, Instituto de Pesquisa Médica do Quênia, Ministério da Saúde da Malásia, Instituto Pasteur da França, Médicos sem Fronteiras (MSF) e Programa Especial para Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais (TDR), da ONU.

A doença de Chagas, assim como a malária e a leishmaniose, é considerada pela organização como uma doença negligenciada pelo fato de não ter tratamento adequado e estar presente quase que exclusivamente em países pobres. No entanto, esse aspecto está mudando. Com a migração, outros países estão registrando casos, como Japão, Espanha e Estados Unidos.

'Iniquidade menor não freia crise no Brasil'

Pesquisador do IPEA afirma que, apesar da redução da pobreza e da desigualdade, economia ainda é sustentada por 30% da população

Agência Brasil/Fábio Pozzebom
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Apesar da redução da pobreza nos últimos anos, a economia brasileira ainda é sustentada pelo consumo de uma pequena parcela da população, afirma o economista Sergei Dillon Soares, do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Em entrevista para um boletim do CIP-CI (Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo), ele defende que a melhoria da desigualdade de renda aumentou o peso dos mais pobres no mercado, mas não a ponto de blindar o Brasil contra crises econômicas — esse processo ajudou apenas “um pouco” a diminuir os efeitos da recessão de 2009, por exemplo.

“O que podemos dizer é que, para além das muito prudentes políticas macroeconômicas que foram seguidas no passado recente, e todo o resto que foi feito corretamente — e o Brasil fez muitas coisas corretamente — talvez a melhoria na desigualdade ajudou um pouco, foi um fator adicional, mas certamente não o principal”, diz Soares.

A entrevista ao centro, um órgão do PNUD em parceria com o governo brasileiro, toma como base um artigo do pesquisador sobre a redução no Brasil do Índice de Gini — que mede a desigualdade de renda no trabalho. Ele comenta que há fortes indícios de que um terço dessa redução deveu-se a políticas de proteção social e um terço a melhorias na educação — e que ainda não há análises consolidadas sobre o terço restante.

A iniquidade tem caído num “bom ritmo”, avalia Soares, mas “temos de mantê-lo durante muitas décadas”. “Se você olhar para fora da janela, você ainda verá como estamos desiguais”, afirma. “Não obstante as recentes melhorias, os pobres ainda são muito pobres”, observa.

Quase toda a renda brasileira permanece concentrada nos 20% ou 30% mais ricos, salienta o economista. O rendimento dos pobres “tem melhorado muito”, mas eles “são ainda muito pobres e não estão suficientemente ricos para sustentar uma economia com o seu consumo”. “Nós realmente ainda não chegamos lá, estamos longe disso”.

O pesquisador do IPEA lembra que países de alto desenvolvimento humano, como Dinamarca, Alemanha e França, demoraram “muitas décadas” para atingir baixos níveis de desigualdade. Hoje, porém, os 50% mais pobres desses países, e mesmo dos Estados Unidos, que é a mais desigual das nações desenvolvidas, são importantes para a atividade econômica.

Para o Brasil manter o ritmo de redução da desigualdade, afirma Soares, os programas de transferência de renda terão papel importante, mas não tanto quanto a educação. Ele ainda cita a necessidade de mudanças tributárias e reforma agrária. “Há muitas coisas que precisam ser feitas antes de sermos um país com baixa desigualdade. Temos ainda um longo caminho a percorrer; nós estamos apenas começando a viagem”.

Frente de trabalho emprega 31 mil no Haiti

Programa considerado vital para reconstrução do país deve dobrar o alcance até o fim de semana; Brasil ajuda no financiamento do projeto

UN Photo/Sophia Paris
da PrimaPagina

Um programa social considerado vital para a rápida reconstrução do Haiti — que consiste na criação de frentes de trabalho que recrutem haitianos — está se expandindo rapidamente. O número de pessoas empregadas pelo projeto dobrou na semana passada e atingiu 31.885. A expectativa do PNUD, que administra a iniciativa, é que o alcance dobre novamente até domingo.

A meta inicial é dar trabalho a 100 mil pessoas o mais rapidamente possível, e depois para mais 100 mil, assim que houver recursos. Os empregados ganham 180 gourdes (equivalente a US$ 4,50) por seis horas de trabalho — o salário mínimo haitiano é de 200 gourdes por oito horas).

As atividades incluem remoção de entulhos das ruas, separação e compactação de material reciclável e de limpeza dos destroços deixados pelo terremoto que atingiu a região da capital, Porto Príncipe, em 12 de janeiro. O objetivo é restabelecer serviços públicos como iluminação, consertar a infraestrutura e dar acesso a água.

O dinheiro para o programa vem de diversas fontes — incluindo o governo brasileiro, China, México, países ricos (como Itália, Japão, Noruega e Espanha) e até governos de nações pobres, como República Democrática do Congo e Gana. O PNUD recebeu promessas de US$ 13,2 milhões, mas obteve até agora US$ 6,1 milhões.

“A verba para o programa está trazendo resultados imediatos para restabelecer o sustento e a dignidade da população do Haiti”, afirma a coordenadora humanitária da ONU, Kim Bolduc, que comanda as Nações Unidas no país. “Mas, para ter sucesso, precisa alcançar muito mais gente, e precisa apoio internacional contínuo”, acrescenta.

“A expansão foi limitada inicialmente pela necessidade de haver coordenação com as autoridades locais e assegurar de que os sistemas estavam em ordem para coisas como pagamento e gestão financeira transparente”, afirmou Eric Overvest, diretor do PNUD no país.

SP abre 2ª Central de Regeneração de CFC

Gás que destrói a camada de ozônio pode ser reciclado e utilizado em refrigeradores antigos, evitando assim seu despejo na atmosfera

PNUMA/Divulgação
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Será inaugurada nesta quinta-feira, na capital paulista, a 4ª Central de Regeneração de CFC no Brasil. Com capacidade para reciclar 1.200 toneladas da substância por ano, essa é a segunda central inaugurada no Estado de São Paulo, que sozinho abriga cerca de 35% dos 15 milhões de aparelhos refrigeradores que ainda utilizam o CFC, além de equipamentos de ar condicionado e outros aparelhos de refrigeração.

Os outros dois centros, de um total de cinco planejados, estão no Rio de Janeiro e no Recife. Somente Porto Alegre aguarda a inauguração do seu. Sozinhos, os quatro Estados selecionados correspondem por aproximadamente 60% do CFC utilizado no país.

Segundo Anderson Alves, técnico do PNUD responsável pelo projeto, a intenção desses centros de Regeneração é fazer com que o fluido possa ser reutilizado, evitando assim que, ao fazer a manutenção de refrigeradores antigos, os mecânicos deixem ele escapar para a atmosfera.

O clorofluorcaboneto (CFC), em suas diversas variantes, é um gás conhecido pelo seu alto potencial de destruição da camada de ozônio. O Protocolo de Montreal, assinado em 1987 por países das Nações Unidas, inclusive o Brasil, proíbe a fabricação e importação desses gases, para que eles sejam substituídos por alternativas menos prejudiciais ao ambiente. O Brasil não o fabrica desde 1999, e desde o começo deste ano (2010) proíbe sua importação.

Sem novas fontes para repor o CFC, as máquinas antigas devem recorrer ao CFC reciclado ou à sua substituição por um gás alternativo, como o HSC134a, que não agride a camada de ozônio mas colabora com o efeito estufa.

Regeneração

Tanto o CFC como o HSC134a podem ser reciclados nessas Centrais de Regeneração. Para que isso ocorra, eles devem ser recolhidos nas oficinas de manutenção e mandados para a central, que irá retirar todas as impurezas decorrentes de sua utilização, como óleo e partículas estranhas.

Reciclado, o gás está pronto para ser reutilizado por outros aparelhos. Segundo Alves, o preço do quilo do CFC reciclado gira em torno de R$ 90 a R$ 100. Enquanto isso, o quilo do HSC134 está por volta de R$ 30. A troca de um gás por outro, no entanto, encarece o custo final da manutenção.

Como o país parou de utilizar o CFC na fabricação de refrigeradores desde 2000, e o tempo médio de vida dos aparelhos é de 15 anos, o técnico do PNUD estima que entre 2015 e 2020 esses aparelhos estarão fora de serviço.

No entanto, a destruição do CFC só é possível através de um processo ainda caro e que não existe no país. "Para destruir o gás, custa dez dólares o quilo e hoje ainda no Brasil não existe lugar. Enquanto isso vamos guardar [o gás] até ter viabilidade técnica para a destruição ou mandar para a reciclagem", afirma.

Reconstrução precisa ter aval de haitianos

População deve ter papel essencial nas decisões sobre como recursos da ajuda internacional são usados, defende chefe da ONU no Haiti

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Kim Bolduc deixa chefia do PNUD Brasil
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Duas semanas após o terremoto de 7 graus na escala Richter que devastou o Haiti, a situação ainda é desoladora no país. No entanto, pequenos fachos de esperança começam a surgir.

Um dos principais é o objetivo do PNUD de destacar junto aos haitianos o quanto a participação deles é importante nas decisões sobre as inúmeras ajudas humanitárias que chegam aos locais que ainda se encontram em situação caótica.

“Os haitianos não devem ser simplesmente beneficiários de ajuda. Eles são os participantes principais da decisão sobre como a ajuda é usada. Oferecendo a eles emprego, as pessoas terão seus próprios recursos e poderão começar a comprar alimentos e outras coisas”, explica Kim Bolduc, representante especial adjunta na MINUSTAH e chefe da ONU e do PNUD no Haiti, mesmo cargo ocupado por ela até o ano passado no Brasil.

Bolduc acredita que “dando à população dinheiro e comida, ela pode participar dos esforços de limpeza e reconstrução das cidades. Isso é fundamental porque não há como ser feito somente pela comunidade internacional”.

Segundo a responsável da ONU, além da ajuda humanitária composta por alimentos, água e itens pessoais básicos, o PNUD quer que os haitianos tenham de volta trabalho, autossuficiência e dignidade perdidos com o terremoto. Uma das formas de conseguir isso é por meio de um projeto que substitui o carvão usado como combustível pelo lixo. Antes da tragédia, o plano empregava 400 pessoas.

Kim Bolduc afirma que os desafios enfrentados pela missão da ONU aumentam todos os dias, mas que o principal deles é acelerar a entrega de ajuda à população, algo que tem se mostrado complicado devido à falta de combustível e às pessoas deslocadas que dormem nas ruas.

Outro ponto importante, na opinião da representante especial adjunta na MINUSTAH, é que o governo está tentando se reorganizar. “Eles (haitianos) sofreram perdas tremendas. Este terremoto atingiu a todos. E o fato de sermos todos capazes de atuar hoje tem muito a ver, eu acredito, com a capacidade da população de resistir e com a nossa determinação para resolver os problemas.”

Corredor humanitário

Para acelerar a chegada de ajuda aos haitianos, a missão das Nações Unidas abriu um corredor humanitário que contou com o apoio do presidente da República Dominicana, Leonel Fernandez. Ele instalou um aeroporto na fronteira entre seu país e o Haiti para escoar as doações recebidas. “Isso ajudou a aliviar o terminal aéreo de Porto Príncipe, que já estava operando acima de sua capacidade”, acrescenta Bolduc.

Apesar disso, tem sido cada vez mais difícil encontrar áreas livres em território haitiano. Nestes locais, a MINUSTAH quer erguer centros de acolhimento para deslocados, de forma a aprimorar o serviço oferecido a estas pessoas e garantir que a população afetada esteja recebendo a ajuda com a quantidade e a qualidade necessárias.

Sem esconder a preocupação com as crianças que estão sem aulas, Kim Bolduc afirma que uma das formas de resolver o problema é “estabelecendo escolas dentro destes centros de acolhimento”.

A responsável da ONU acredita ainda que uma decisão acertada foi recorrer aos países vizinhos, como o Panamá, para resolver alguns problemas estruturais, já que a República Dominicana começa a enfrentar escassez de combustível para doar ao Haiti.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Chik Jeitoso - Entrevista Alvaro Dias - Radio Mais AM 1120 - parte 01

Chik Jeitoso - Entrevista Alvaro Dias - Radio Mais AM 1120 - parte 02

Polícia catarinense prende líderes do MST em "ação preventiva"

Por Elanie Tavares*
Um dos coordenadores estaduais do MST em Santa Catarina, Altair Lavratti, foi preso em Imbituba numa ação que lembra os piores momentos de um estado de exceção. Com uma força de mais de 30 policiais militares, a prisão foi efetuada no momento em que ele realizava uma reunião pública, num galpão de reciclagem de lixo da cidade. A acusação é de que Lavratti, junto com outros sindicalistas e militantes sociais preparava uma ocupação de terras na região. Foi levado sob a alegação de "formação de quadrilha".

Segundo informações divulgadas no jornal Diário Catarinense, que estava "magicamente" no ato da prisão ao lado da polícia, os integrantes do MST estavam sendo monitorados desde novembro depois que um integrante do Conselho de Segurança Comunitária de Imbituba passou informações sobre a organização de uma suposta ocupação em terras do estado. Outras duas pessoas também foram presas, sendo que uma delas, Marlene Borges, presidente da Associação Comunitária Rural, está grávida. Ela teve a casa cercada na madrugada de sexta-feira e foi levada para Criciúma. Outro militante, Rui Fernando da Silva Junior, foi levado para a cidade de Laguna.

Integrantes do MST, advogados e um deputado estadual estiveram procurando por Lavratti durante a noite toda, mas não haviam conseguido contato até a manhã de sexta-feira, quando souberam que de Imbituba ele havia sido levado para Tubarão.

Ainda segundo informações da polícia, o juiz Fernando Seara Hinckel autorizou gravações telefônicas e determinou a intervenção do Ministério Público. Também teria havido a participação de P-2 (policiais a paisana, disfarçados) infiltrados nas reuniões dos militantes sociais da região de Imbituba.

Usando de um artifício já usado contra o Movimento dos Atingidos das Barragens, que foi o de prender "preventivamente" integrantes do movimento alegando "suspeita de invasão", o poder repressivo de Santa Catarina repete a dose agora contra o MST. Para a polícia e para o poder público, reuniões que envolvam sindicalistas e lutadores sociais passam a ser "suspeitas" e sendo assim, passíveis de serem interrompidas com prisão. Só para lembrar, este é um tipo de ação agora muito usado nos Estados Unidos, depois de 11 de setembro, quando o presidente George Bush acabou com todas as garantias individuais dos cidadãos. Lá, e agora também aqui, o estado pode considerar suspeita qualquer tipo de reunião que envolva movimentos sociais. Conversar e organizar a luta por uma vida melhor passa a ser coisa de "bandido".

A acusação de formação de quadrilha não encontra respaldo uma vez que é pública e notória a preocupação do MST com a situação das famílias daquela região, que vem sistematicamente tendo que abandonar a zona rural em função da falta de apoio à agricultura familiar, enquanto o agronegócio recebe generosa ajuda governamental. A reunião na qual estava Lavratti justamente discutia esta situação e levava a solidariedade do movimento às famílias que seguem sendo despejadas de suas terras, ações que fazem parte do cotidiano do MST. A ação do governo se deve ao fato de em Imbituba ter sido criada uma Zona de Processamento e Exportações que tem engolido fatias consideráveis de dinheiro público sendo, portanto, considerada estratégica para os empresários da região.

Para o MST, as prisões foram descabidas, e só reflete a forma autoritária como o governo de Santa Catarina tem conduzido a relação com os movimentos sociais, criminalizando as tentativas dos catarinenses de realizar a luta por uma vida digna. Já para dar respostas aos atingidos pelo desastre em Blumenau, ou aos desabrigados pelas chuvas que tem caído torrencialmente este ano em Santa Catarina, não há a mesma agilidade estatal. Como bem já analisava o sociólogo Manoel Bomfim, no início do século vinte, ao refletir sobre a formação do estado brasileiro: ?desde o princípio o Estado foi um aparelho de espoliação e tirania, feroz na opressão, implacável na extorsão. É um parasita?. Sempre aliado aos donos do poder e da riqueza, o Estado abandona as gentes e só existe para o mal do povo. É por conta disso, que, conforme Bomfim, "a revolta contra as autoridades públicas é o processo normal de reclamar justiça" já que as populações são sistematicamente abandonadas pelo Estado e pela Justiça enquanto a minoria predadora dos ricos e poderosos tem seus interesses defendidos, inclusive com o uso do dinheiro e do patrimônio que é de todos.

Como exemplo disso, basta trazer à memória o escândalo da Moeda Verde, quando ricos empresários locais fraudaram laudos ambientais para a construção de grandes empreendimentos na cidade de Florianópolis. Presos sob a luz dos holofotes, não ficaram um dia sequer na cadeia e o governador do Estado segue frequentando suas festas e dizendo ao país inteiro, através da televisão, que os empreendimentos construídos a partir da fraude são os mais bonitos da cidade e necessitam ser conhecidos e consumidos. Outro caso emblemático e atual, que não recebe a mão pesada do poder público, é o que envolve o vice-governador Leonel Pavan, enredado em escândalo de corrupção, e que também muito pouco interesse provoca na mídia. Não precisa ir muito longe para observar que Manoel Bomfim está coberto de razão: "os estadistas devem inquirir das condições sociais, indagar se as populações se sentem mais felizes e as causas dos males que ainda as atormentam, para combatê-las eficazmente". Mas, em vez disso, lutadores do povo são presos e os direitos coletivos se perdem diante do interesse privado de uma minoria.

* Elaine Tavares é jornalista