sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Equador: Propõem regular ação militar e policial para segurança

Quito, (Prensa Latina) O chefe do Comando Conjunto das Forças Armadas do Equador, Luis Ernesto González, apresentou ao Parlamento uma alternativa de reformas à Lei de Segurança Pública para regular a contribuição militar no combate à criminalidade.

Ante a Comissão de Soberania, Relações Internacionais e Segurança Integral do Parlamento, González disse que a participação militar na segurança interna não deve ser sem critérios, mas sim subsidiária à Polícia e com coordenação entre as forças.

Segundo o chefe militar, o artigo 23 do projeto deveria dispor que "as Forças Armadas, como entidade protetora dos direitos, exercerá as competências para o controle de uso de armas, munições, explosivos, materiais e substâncias relacionadas".

Ao exercer esses controles "que lhe foram atribuídos na Lei, (as Forças Armadas) efetuarão ações preventivas, dissuasivas e reativas para preservar a segurança da sociedade".

Propõe também que o Conselho de Segurança Pública e do Estado recomendará ao Presidente da República o emprego das Forças Armadas, em circunstâncias em que a manutenção da segurança cidadã o necessite.

Neste caso, propõe que seja o ministro de Defesa quem ordene ao Comando Conjunto o planejamento militar, determine o contingente requerido, o espaço geográfico, o tempo, a equipe e armamento em dotação a se empregar, e as operações a se executar.

Para seu cumprimento o Ministro de Defesa coordenará ações com o do Interior enquanto "Finanças atribuirá os recursos necessários para o treinamento, equipamento e uso das Forças Armadas para proteger a segurança cidadã".

González considerou que o trabalho entre Forças Armadas e Polícia Nacional é fundamental para manter a segurança integral do país. "Este deve ser um projeto nacional que merece respostas multidimensionais".

"Estes riscos e ameaças dificultam a vida social e econômica da comunidade, portanto todos os setores do Estado devem participar das tarefas que se empreendam para combater a insegurança, destacou ante a comissão legislativa.

Palestino morre na Cisjordânia por tiroteios de Israel

Ramala, (Prensa Latina) Um palestino foi assassinado hoje por um soldado israelense em um tiroteio no posto de controle militar de Yabab Mevo Dotan, no distrito de Jenin, disseram fontes hospitalares.

Segundo o relatório, citando testemunhas, Salem Omar As-Samuel, de 24 anos e originário da aldeia de Yamoun, foi atacado quando voltava para o ponto de controlo do território ocupado por Israel.

Outras versões com base em porta-vozes militares de Tel Aviv disseram que o homem já havia atacado a instalação e que os militares sionistas replicaram sua ação, que não causou feridos, matando-o instantaneamente.

Médicos e membros do Crescente Vermelho (equivalente à Cruz Vermelha) disseram que as forças israelenses isolaram a cena e, inicialmente, declararam a área militar fechada, obrigando as ambulâncias ficar-se cerca de 300 metros de distância, enquanto a vítima estava caída no chão.

No sábado, tropas israelenses implantadas no posto militar de Hamra, no leste de Nablus, também mataram a tiros um menino palestino, e morreu em 1 de janeiro um outro homem de 21 anos em circunstâncias semelhantes e no mesmo local.

Por outro lado, a mídia de televisão noticiou que quatro pescadores palestinos na Faixa de Gaza foram presos por integrantes da Marinha de Israel depois de ser forçado a descer de seus barcos ancorado ao largo da costa do enclave.

Vietnã mais comprometido com construção do socialismo

Hanoi, (Prensa Latina) Vietnã encerrou o XI Congresso de seu Partido Comunista (PCV) com um sólido compromisso com a construção do socialismo, a estabilização da economia e contra a corrupção.

Foi um encontro mais preocupado em fortalecer a disciplina e o exemplo aos militantes, que para debater possíveis soluções à inflação e outros lastres no caminho para a industrialização.

Para o recém estreado XI mandato, repetem no Bureau Político o subsecretário Truong Tan Sang, o premiê Nguyen Tan Dung e os ministros Phung Quang Thanh (Defesa) e Le Hong Anh (Polícia).

Também regressam o vice-premiê Nguyen Sinh Hung, os secretários do Partido na Cidade Ho Chi Minh e Ha Noi, Le Thanh Hai e Pham Quang Nghi, e To Huy Rua, chefe de Propaganda e Educação do órgão.

As cinco novas figuras do Bureau Político são Tran Dai Quang, Tong Thi Phong, Ngo Van Du, Dinh The Huynh e Nguyen Xuan Phuc, votados pelos 175 membros oficiais e 25 suplentes do Comitê Central.

Vários analistas consideraram que a ratificação de Tan Dung como membro do Bureau Político confirma seu caminho para um segundo mandato como premiê, depois de ter um 2010 particularmente difícil.

Os delegados aprovaram o Projeto de Estatutos, que incluiu poucas mudanças, a maioria de nomenclatura, para simplificar procedimentos e reforçar o papel reitor e regulador do Partido na sociedade.

O texto promoveu o espírito crítico e autocrítico, e defendeu-se dar maior poder aos comitês em níveis inferiores para denunciar violações disciplinárias e éticas entre os quadros superiores.

O próprio secretário geral que termina o mandato, Nong Duc Manh, admitiu que os militantes esperam mais de seus líderes e saudou todo apontamento que permita superar as insuficiência na direção partidária.

O veterano político estimou que este Congresso abre um novo período na construção de um Vietnã socialista, com um povo próspero que goze de um país forte, democrático, igualitário e civilizado.

Seu flamante sucessor, Nguyen Phu Trong, considerou que os debates dos últimos nove dias refletiram o caráter democrático do encontro e seu desejo de responder inevitavelmente aos interesses do povo.

Ratificou o compromisso da nova direção política do país com a soberania do país, seguindo com criatividade a ideologia marxista-leninista e a moral do prócer Ho Chi Minh.

Entre os desafios imediatos da organização destacam-se o freio à inflação e o encarecimento do custo de vida, e avaliar se renuncia a seu vertiginoso crescimento econômico para evitar uma eventual crise.

Depois deste Congresso, o Vietnã concentra-se nos preparativos do "Tet" (Ano Novo Lunar), em espera das eleições legislativas de maio, que definirão os cargos de presidente, premiê e titular da Assembleia Nacional.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Educação: da quantidade à qualidade

Escrito por Frei Betto

A presidente Dilma promete priorizar a educação. No Brasil, apenas 10% da população concluíram o ensino superior; 23% o médio, e 36% não terminaram o fundamental. O ministro Fernando Haddad se compromete a adotar tempo integral no ensino médio, combinando atividades curriculares com aprendizado profissionalizante.

São promessas às quais se soma a de aplicar 7% do PIB na educação (hoje, apenas 5,2%, cerca de R$ 70 bilhões).

O governo Lula avançou muito na área: criou 14 novas universidades públicas e mais de 130 expansões universitárias; a Universidade Aberta do Brasil (ensino à distância), cuja qualidade é discutível; construiu mais de 100 campi universitários pelo interior do país; criou e/ou ampliou Escolas Técnicas e Institutos Federais; e, através do PROUNI, possibilitou a mais de 700 mil jovens o acesso ao ensino superior.

Outro avanço é a universalização do ensino fundamental, no qual se encontram matriculados 98% dos brasileiros de 7 a 14 anos. Porém, quantidade não significa qualidade. Ainda há muito a fazer. Estão fora da escola 15% dos jovens entre 15 e 17 anos. Ao desinteresse, principal motivo, alinham-se a premência de trabalhar e a dificuldade de acesso à escola.

Tomara que a proposta de tempo integral do ministro Haddad se torne realidade. Nos países desenvolvidos os alunos permanecem na escola, em média, 8h por dia. No Brasil, 4h30. Pesquisas indicam que, em casa, passam o mesmo tempo diante da TV e/ou do computador. Nada contra, exceto o risco de obesidade precoce. Mas como seria bom se a TV emitisse mais cultura e menos entretenimento e se na internet fossem acessados conteúdos mais educativos!

Os estudantes brasileiros leem 7,2 livros por ano, dos quais 5,5 são didáticos ou indicados pela escola. Apenas 1,7 livro por escolha própria. E 46% dos estudantes não frequentam bibliotecas.

No Pisa 2009 (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), aplicado em 65 países, o Brasil ficou em 53º lugar. Na escala de 1 a 800 pontos, nosso país alcançou 401. No quesito leitura, 49% de nossos alunos mereceram nível 1 (1 equivale a conhecimento rudimentar e 6 ao mais complexo). Nível 1 também para 69% de nossos alunos em matemática e para 54% em ciências.

O Pisa é aplicado em alunos(as) de 15 anos. Nas provas de matemática e leitura, apenas 20 alunos (0,1%), dos 20 mil testados, alcançaram o nível 6 em leitura e matemática. Em ciências, nenhum. No conjunto, é em matemática que nossos alunos estão mais atrasados: 386 pontos (o máximo são 800). O MEC apostava atingirem 395. Na leitura, nossos alunos fizeram 412 pontos, e em ciências 405.

Estamos tão atrasados que o Plano Nacional de Educação prevê o Brasil alcançar, no Pisa, 477 pontos em 2021. Em 2009, a Lituânia alcançou 479; a Itália, 486; os EUA, 496; a Polônia, 501; o Japão 529; e a China, campeã, 577.

Nos países mais desenvolvidos, 50% do tempo de instrução obrigatório aos alunos de 9 a 11 anos e 40% do tempo para os alunos de 12 a 14 anos é ocupado com ciências, matemática, literatura e redação. E no ensino fundamental não se admitem mais de 20 alunos por classe.

Onde está o nosso tendão de Aquiles? Na falta de investimentos – em qualificação de professores, plano de carreira, equipamentos nas escolas (informática, laboratório, biblioteca, infra-estrutura desportiva etc.).

Análise de 39 países, feita pela OCDE em 2010, revela que o investimento do Brasil em educação corresponde a apenas 1/5 do que os países desenvolvidos desembolsam para o setor. EUA, Reino Unido, Japão, Áustria, Itália e Dinamarca investem cerca de US$ 94.589 (cerca de R$ 160 mil) por aluno no decorrer de todo o ciclo fundamental. O Brasil investe apenas US$ 19.516 (cerca de R$ 33 mil).

Embora a OMC tenha insinuado retirar a educação da condição de dever do Estado e direito do cidadão e transformá-la em simples negócio – ao que o governo Lula se contrapôs decididamente -, os 5,2% do PIB que nosso país aplica na educação são insuficientes. O que favorece a multiplicação de escolas e universidades particulares de duvidosa qualidade. Entre os países mais ricos, derivam do poder público 90% dos investimentos em ensinos fundamental e médio.

Ainda convivemos com cerca de 14 milhões de analfabetos com 15 anos ou mais. Sem contar os analfabetos funcionais. Dos 135 milhões de eleitores em 2010, 27 milhões não sabiam ler nem escrever. Faltou ao governo Lula um plano eficiente de alfabetização de jovens e adultos.

Tomara que Dilma cumpra a promessa de criar 6 mil novas creches e o MEC se convença de que alfabetização de jovens e adultos não se faz apenas com dedicados voluntários. É preciso magistério capacitado, qualificado e bem remunerado.

Todos gostariam que seus filhos tivessem ótimos professores. Mas quem sonha em ver o filho professor? Na Coréia do Sul, onde são tão bem remunerados quanto médicos e advogados, e socialmente prestigiados, todos conhecem o provérbio: "Jamais pise na sombra de um professor."

Frei Betto é escritor, autor de "Alfabetto – Autobiografia Escolar" (Ática), entre outros livros. http://www.freibetto.org/  
twitter:@freibetto

Injustiça e repressão, marcas do tucanato paulista, voltam a aparecer no reajuste do ônibus

por Gabriel Brito

Na tarde/noite da quinta-feira passada, 13, o centro da cidade de São Paulo voltou a abrigar novas demonstrações de barbárie de sua Polícia Militar. Como tem sido praxe com relação a todos os protestos sociais da cidade, imperaram a violência e total indisposição ao diálogo com as pessoas que protestavam contra o novo aumento na tarifa do ônibus na capital paulista - de R$ 2,70 para R$ 3,00.

Dessa forma, o ato que reuniu entre 800 e 1000 pessoas para mostrar a insatisfação popular contra esse novo ataque ao bolso do habitante do estado, gesto acompanhado por pelo menos outras 16 prefeituras das principais cidades do país que decidiram reajustar a passagem imediatamente após as eleições, não pôde sequer chegar a seu destino final, a Câmara dos Vereadores, tamanha a truculência oficial.

"Esse aumento, acima da inflação, tem objetivo político: aumentar agora de uma vez e não voltar a fazê-lo nos próximos anos, por motivos eleitoreiros. Mas é preciso dizer que o movimento não protesta somente pelo fato de a tarifa ter sido aumentada acima da inflação. Somos contra todos os aumentos de tarifa, por achar que a cada novo reajuste, mais pessoas não conseguem pagar o ônibus", disse ao Correio da Cidadania Mariana Toledo, do Movimento Passe Livre (MPL), que idealiza a gratuidade no transporte coletivo - afinal, já financiado com dinheiro público.

O pior de tudo é que o mesmo filme foi exibido nas ruas da megalópole no início do ano passado, quando o prefeito Gilberto Kassab descumpriu pela primeira vez sua promessa de não reajustar a tarifa de ônibus em seu mandato. Na ocasião, a manifestação também teve dificuldades de evoluir e transmitir sua mensagem, e a violência policial brilhou fortemente a olhos vistos, tal como nos protestos dos professores, policiais civis, afetados pelas chuvas... leia mais

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Requião promete reorganização do PMDB e usará força do Twitter na tarefa

olho na mira

O senador Roberto Requião nunca se deu muito bem com a mídia paranaense e a tratou a pão e água durante os oitos anos que ficou no poder. Ao deixar o governo, muitos profissionais da mídia curitibana apostavam que Requião teria dificuldades em se comunicar com seus eleitores, algo que fazia usando a TV Educativa.

Só que, como diz o Chapolin Colorado, essa turma da oposição não contava com a astúcia de Requião, que migrou para internet e abriu uma conta no Twitter, site de relacionamentos, onde um usuáriio, seguidor ou não, pode conversar com o senador como se estivesse na cozinha de sua casa. E o que é melhor, inclusive seus opositores, com os quais Requião debate on line.

No último domingo, Requião avisou seus admiradores e aliados que abrirá um escritório em Curitba para reorganizar o PMDB velho de guerra no estado, inicialmente na Capital. E qual o meio usado para o aviso? O Twitter, onde é seguido por quase 15 mil pessoas, o que o torna um dos mais requisitados do estado.

Como o avanço da internet, sobre outros meios de comunicação, é irreversível, os adversários de Requião terão de se conformar com seu sucesso na rede, simplesmente porque foi visionário, saiu na frente e continua em evidência. Aliás, o Twitter ajudou Requião na campanha eleitoral, com considerada parcela dos votos vinda dos twitteiros, em sua maioria formadores de opinião.

PNUD se solidariza com Brasil por chuvas

Administradora do PNUD, Helen Clark, enviou carta de solidariedade à presidente Dilma Rousseff e reiterou compromisso de apoio ao país

Vladimir Platonow/ABr
da ONU

A Organização das Nações Unidas se solidariza com o governo brasileiro, as demais autoridades locais e a sociedade civil nos esforços empreendidos face à tragédia causada pelas chuvas recentes no país, e em especial aos desastres registrados na região serrana do Rio de Janeiro.

A ONU parabeniza o governo brasileiro pela iniciativa de criar o Sistema Nacional de Prevenção e Alerta de Desastres Naturais e expressa seu reconhecimento às condições e capacidades do país para responder a este desafio.

O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, informou nesta segunda-feira que considera a tragédia um "desastre em grande escala" e que está "extremamente preocupado" com a situação, mas afirma que a ONU está preparada para ajudar em caso de solicitação da parte do governo brasileiro. Ban Ki-moon afirmou que está triste e que lamenta a perda de vidas.

Desde os primeiros desdobramentos desta tragédia, o Escritório das Nações Unidas para Assuntos Humanitários (OCHA), como parte do seu mandato, mobilizou esforços para colocar-se apto a uma eventual ajuda ao governo brasileiro e para fortalecer, no longo prazo, as capacidades de resposta do Sistema ONU no Brasil quanto à prevenção e à gestão de riscos e desastres.

Na última quinta-feira, dia 13, a Administradora do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Helen Clark, enviou carta de solidariedade à presidente Dilma Rousseff. "Nesta hora de sofrimento, envio uma mensagem especial de solidariedade ao povo brasileiro e minhas mais sinceras condolências aos familiares das vítimas", diz a representante do PNUD.

No documento, Helen Clark reitera também o compromisso da Organização "de apoiar o Brasil durante esta emergência, bem como de auxiliá-lo no processo de recuperação e reconstrução das áreas afetadas."

'País pobre não deve ter ação social de rico'

Economista diz que modelo de proteção social de países desenvolvidos não pode ser 'transferido servilmente' a nações em desenvolvimento
Agência Brasil/Divulgação


da PrimaPagina

Os países em desenvolvimento não devem usar o mesmo enfoque e os mesmos conceitos das políticas sociais dos desenvolvidos, defende o economista Armando Barrientos, professor da Universidade de Manchester, na Inglaterra. Um dos riscos que os emergentes correm ao simplesmente transplantar o ideário europeu, por exemplo, é excluir os trabalhadores informais, afirma ele em artigo publicado na última edição da Poverty in Focus, revista do CIP-CI (Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo), um órgão do PNUD em parceria com o governo brasileiro.

Os programas aplicados na Europa e nos Estados Unidos podem ser levados em consideração, admite o pesquisador, até porque há grande volume de pesquisas sobre essas estratégias e seus efeitos. No entanto, “as condições nos países em desenvolvimento recomendam que as instituições e o enfoque europeus não sejam transferidos servilmente aos países em desenvolvimento”, escreve Barrientos no artigo “Os Limites da Proteção Social”.

Um dos exemplos de que esse tipo de transferência não deve ser feito vem da América Latina, avalia o autor. “A extensão das instituições de seguro social iniciadas no início do século 20 nunca foi além dos trabalhadores com emprego formal, criando um sistema de proteção social ‘truncado’”, afirma o economista. A expansão recente das políticas sociais da região, avalia, são um reconhecimento da necessidade de encontrar modos próprios de alcançar os excluídos.

As políticas criadas nos países ricos — desde o século 17, na Inglaterra, até a década de 70, nos Estados Unidos — basicamente abrangem seguro social (programas contributivos para proteção contra envelhecimento ou riscos ligados ao trabalho), assistência social (programas de combate à pobreza financiados por impostos) e programas ligados a emprego.

Nos emergentes, parece ser mais conveniente uma abordagem de política social mais abrangente, em que, segundo Barrientos, o desenvolvimento é visto como algo mais amplo do que aumento da renda per capita e inclui atenção à saúde, ao meio ambiente e à autonomia (empoderamento). “Para os países em desenvolvimento, o desafio é fortalecer o papel de estímulo ao desenvolvimento das políticas sociais, integrar essas políticas ao desenvolvimento social e econômico e reconhecer o papel fundamental da assistência social”, avalia.

Essa abordagem pode ajudar as políticas de proteção social a contribuir para o desenvolvimento, mas, adverte o autor, é preciso entender que “o desenvolvimento é muito mais do que a proteção social”. Projetos bem elaborados no âmbito da assistência social podem reduzir a pobreza, diminuir as disparidades no acesso aos serviços básicos e reforçar a capacidade produtiva dos pobres. Mas “é muito menos provável que programas de assistência social possam oferecer amplo crescimento econômico ou empoderamento”.

Brasil estuda leis para banir material tóxico

País busca amparo legal e técnico para tratar os policloretos de bifenila (PCBs), compostos químicos poluentes que podem provocar câncer

Divulgação
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FREDERICO ROSAS
da PrimaPagina

O Brasil busca um arcabouço legal e técnico para tratar os policloretos de bifenila (PCBs), compostos químicos tóxicos, usados principalmente em sistemas elétricos, como transformadores. Signatário da Convenção de Estocolmo, que estabelece diretrizes contra a produção e o uso de substâncias poluentes, o país se compromete com a completa eliminação e destruição desses compostos até 2025.

O tratado assinado em 2001 na capital escocesa por 151 nações e territórios classifica os policloretos de bifenila (também chamados de bifenilas policloradas) entre os 12 poluentes orgânicos persistentes – isto é, que permanecem no ambiente por períodos muito longos e contaminam as cadeias alimentares. A OMS (Organização Mundial da Saúde), por sua vez, inclui os PCBs no grupo de substâncias que podem causar câncer.

As discussões sobre o arcabouço legal e técnico, como as realizadas na Oficina de Eliminação e Gestão de PCBs, organizada em novembro de 2010 pelo PNUD, em Brasília, tentam avaliar se as normas brasileiras sobre o assunto são suficientes para tratar os PCBs. Se ainda não forem, será preciso apontar saídas e novas regras para eliminar os policloretos de bifenila, como explica Zilda Maria Veloso, gerente de projeto de Resíduos Perigosos do Ministério do Meio Ambiente (na foto desta página, ao lado do consultor Paulo Fernandes, no encontro de Brasília).

Os especialistas analisam, entre as questões legais, dispositivos da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) e resoluções do CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente), por exemplo. Na parte técnica, estão sendo verificadas metodologias para tratamento dos PCBs em laboratórios ou para capacitações de técnicos, entre outros fatores.

Os PCBs são produtos químicos que, na forma sólida e líquida, desempenham o papel de substâncias dielétricas (isolantes ou que não conduzem eletricidade), termicamente estáveis. Por isso, foram usados desde a década de 1930 em transformadores e capacitores de energia. Também eram largamente utilizados na composição de solventes, plastificantes e desinfetantes.

Aos poucos, foram surgindo pesquisas mostrando seus problemas para a saúde de humanos e animais.

Uma portaria interministerial proibiu no Brasil, em 1981, a fabricação e a comercialização do material. No entanto, Zilda afirma que essa norma não impediu legalmente a utilização dos policloretos de bifenila, sobretudo em geradores de energia e em hospitais e hotéis mais antigos. “Podem existir ainda hoje alguns estoques de PCBs puros, mas o que há muito mesmo são PCBs misturados com outros dielétricos”, avalia.

Para enfrentar o problema, o Brasil conta com o projeto BRA/08/G32, aprovado pelo GEF (Fundo Global para o Meio Ambiente), mecanismo de cooperação internacional que ajuda a cobrir custos de iniciativas ambientais. A iniciativa, que consiste no estabelecimento da gestão de resíduos de PCBs, será executada ao longo de cinco anos pelo Ministério do Meio Ambiente através da Secretaria de Mudanças Climáticas e Qualidade Ambiental agência executora, em parceria com o PNUD.

A principal forma de eliminar os PCBs é incinerar transformadores e outros equipamentos que utilizem a substância em sua composição. O CONAMA expediu, em 1994, uma resolução autorizando a exportação de PCBs, para facilitar a destruição do produto. A decisão foi motivada pela pouca capacidade instalada no país para dar um destino final razoável para os resíduos tóxicos e para o próprio óleo.

Fonte de doenças

O estudo Acúmulo de Policloretos de Bifenila na População da Grande São Paulo, divulgado por pesquisadores da Universidade de São Paulo em 1987, cita, entre os possíveis efeitos dos PCBs à saúde humana, aumento das incidências de câncer de pâncreas e de fígado, de cirrose hepática, melanoma e lesões difusas da pele e grau moderado de retardo mental.

Ainda de acordo com as fontes do estudo, republicado em diversos países, “a introdução dos PCBs no organismo humano se faz através do ar, da água, do solo e, especialmente de alimentos, tais como carne, leite, ovos, hortaliças, peixes, aves, etc”.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Lupi nega maquiagem do Caged para atingir meta de emprego

O ministro do Trabalho, Carlos Lupi, negou ter “maquiado” os números para atestar que cumpriu a meta e gerou o recorde de 2,52 milhões de empregos formais em 2010. “Estamos antecipando a divulgação de dados que estarão na Rais”, e que sairiam somente em maio, disse.

vermelho

O ministro tinha uma meta de 2,5 milhões de empregos com carteira assinada, em todo o país, em 2010. O último recorde anual era de 2007, com 1,61 milhão.

Pela primeira vez, Lupi acrescentou aos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do ano passado empregos gerados “no prazo e fora do prazo”.

“Todos os anos, há empregos no Caged registrados fora do prazo, e as empresas pagam multas por isso. Esses dados vão para a Rais, que capta a empregabilidade dos setores públicos, militares, e não só do setor privado, área de abrangência do Caged”, explicou Lupi.

Ele complementou que, como o Caged cobre apenas o emprego no setor privado, essa estatística fica “de 10% a 15%” menos que a Rais (Relação Anual de Informações Sociais).

De forma que, inicialmente, o Caged apontava até novembro de 2010 um acúmulo de 2,544 milhões de empregos criados. O saldo de dezembro foi negativo em 407.510, ou seja, o total líquido de vagas com carteira assinada no ano seria de 2.136.947.

Ocorre que o Caged acrescentou 387.731 empregos da lista de registros feitos “fora do prazo”, entre janeiro e novembro de 2010. Assim, Lupi divulgou que o total do ano ficou em 2.524.678.

“Tenho certeza de que o total de 2010 vai subir a 3 milhões, quando divulgarmos os acertos de declarações em fevereiro”, afirmou Lupi. Ele seguiu justificando que a mudança nos números significa que “estamos aprimorando para uma informação mais precisa”.

Segundo Lupi, o recorde de mais de 2,5 milhões de empregos em 2010 foi influenciado pela retomada da economia, após a parada pela crise em 2009, porque o Brasil reagiu rápido.

Fonte: Valor

Ex-deputado Fernando Carli Filho irá a juri popular

O juiz da 2.ª Vara do Tribunal do Júri, Daniel Surdi Avellar determinou que o ex-deputado estadual Fernando Ribas Carli Filho será levado a júri popular. Porém, ainda não há uma previsão de quando vai acontecer o julgamento.

O ex-deputado vai responder por duplo homicídio com dolo eventual, ou seja, dirigindo em alta velocidade, ele assumiu o risco de matar alguém. O juiz ainda incluiu uma qualificação no crime por considerar que Carli Filho tentou impossibilitar o trabalho da Justiça.

Mesmo que as provas técnicas tenham sido embargadas, o juiz aceitou os indícios de embriaguez após testemunhas terem afirmado que o ex-deputado estava alcoolizado.

Havana será a capital mundial da educação

Com o histórico de ter reunido mais de 54 mil educadores de todas as partes do mundo desde que se iniciaram, em 1986, os congressos de Pedagogia, terá início em Havana, Cuba, no próximo dia 24 mais um congresso de educadores, fazendo do país caribenho a capital educacional do mundoos congresos de Pedagogía en 1986, Cuba será la semana próxima la capital mundial da Educação

Prensa Latina

O fórum bienal, é o maior já organizado em Cuba, que já sediou 11 edições anteriores, das quais participaram no total 44.978 estrangeiros e 9.300 cubanos, segundo informou a presidente do Comitê Científico do encontro, Eva Escalona, também diretora de Ciência e Técnica do Ministério da Educação.

Ao falar sobre as projeções de participantes no encontro que se inicia na próxima semana no Palácio de Convenções de Havana, Escalona afirmou que já estão inscritos 2.800 trabalhos, uma cifra que supera os apresentados em 2009.

Independentemente da quantidade de trabalhos apresentados, o desafio é não permitir que o nivel científico seja inferior, acrescentou.

Entre as delegações mais numerosas se encontram as da Venezuela e do México, que superarão mais de mil participantes cada uma, a de Cuba, com 600, e a do Brasil (500), ressalvando que não são dados definitivos.

Vários ministros representando os membros da Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba) farão exposições sobre suas experiências em matéria educacional durante o congresso.

Além da ministra da Educação de Cuba, Ena Elsa Velázquez, e do ministro da Educação Superior, Miguel Díaz-Canel, farão conferências os ministros venezuelanos da Educação Universitária, Edgardo Antonio Ramírez e da Educação, Jennifer Gil.

Também está prevista uma intervenção do titular da Educação da Bolivia, Roberto Aguilar, e está confirmada a visita de ministros de países africanos.

Casas em lixão rendem multa de R$ 2 milhões aos cofres de Foz

Prefeito não cumpre Termo de Ajuste de Conduta com Ministério Público e município recebe multa milionária

A Prefeitura de Foz do Iguaçu deve pagar uma multa de cerca de R$ 2 milhões por não ter efetuado a reparação ambiental da área em que funcionava o antigo lixão da cidade.

A punição se refere ao descumprimento de dois termos de ajustamento de conduta firmados entre o Município e a Promotoria de Justiça de Proteção do Meio Ambiente de Foz do Iguaçu.

O prefeito de Foz, Paulo Mac Donald Ghisi (PDT), havia se comprometido com o Ministério Público a realizar a recuperação da região, conhecida como Arroio Dourado, sob pena de multa. Além de não ter feito nenhuma ação de ordem ambiental, permitiu que o terreno fosse ocupado irregularmente por dezenas de famílias.

Em 2008, o atual prefeito, Paulo Mac Donald, assinou contrato de financiamento com a Caixa Econômica Federal no valor de R$ 1,79 Milhão para o fim de custear a retirada das famílias do lixão e seu encaminhamento para loteamento popular. Até o momento, porém, as medidas necessárias à retirada dessas pessoas não foram tomadas.

Em novembro do ano passado o prefeito recusou-se a assinar novo TAC com o MP-PR e o IAP. A Promotoria de Justiça buscava com esse documento fixar metas e prazos para a retirada das famílias do local e recuperação a área.

Com essa negativa do prefeito municipal de Foz, não restou alternativa ao Ministério Público senão a execução das multas pelos termos de ajustamento de conduta já descumpridos. No total, o valor das sanções chega a R$ 2,09 Milhões. Esse valor deve seguir para o Fundo Estadual do Meio Ambiente.

Contumaz – Não é a primeira vez que a Gestão Paulo Mac Donald gera multa milionária aos cofres públicos de Foz do Iguaçu. Em 2010 o Instituto Ambiental do Paraná (IAP) aplicou multas no valor aproximado de R$ 10 Milhões em virtude da forma ilegal como o lixo do Hospital Municipal local era tratado.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Banco indeniza cliente que esperou demais

Uma lei estadual limita a demora no atendimento a 20 minutos (ou 30, em situações especiais). Em 2010, 268 pessoas reclamaram no Procon

Esperar na fila de banco além do tempo máximo determinado pela lei estadual – 20 minutos em dias normais e 30 minutos em vésperas ou após feriados – resultou em ganho financeiro para o professor de geografia Jair Arcelino dos Santos. Em 14 de dezembro, o Juizado Especial Cível da comarca de Araucária condenou o Banco do Brasil a pagar R$ 1.000 ao docente por danos morais. Por duas vezes, nos dias 27 de agosto e 17 de setembro, Santos esperou mais de 50 minutos na fila da agência de Araucária, município onde reside – Araucária tem lei municipal similar a estadual. “Isso ocorre há anos e ninguém faz nada. Cansei e resolvi entrar com a ação por conta da falta de respeito. Os bancos são as instituições que mais têm lucro, mas não investem no bem-estar do cidadão”, explica Santos.

Diante de inúmeros casos de não cumprimento da medida, o número de consumidores que procuraram a justiça aumentou. Desde o início do ano passado, o Procon-PR registrou 268 reclamações sobre demora em filas do atendimento bancário. Em 2009, foram 354 casos. Além das denúncias, a entidade realiza fiscalização e as multas variam entre R$ 200 e R$ 3 milhões.

“A pessoa que esperou na fila além do tempo determinado teve prejuízo e precisa ser indenizada. É cada vez mais comum os consumidores ingressarem com processo e o juiz condenar os bancos”, afirma a advogada Claudia Silvano, do Procon-PR.

De acordo com Santos, o processo foi fácil e rápido – o tempo total da ação não ultrapassou 90 dias. Como prova, o professor utilizou a senha distribuída pelo banco, que tem o horário da chegada ao estabelecimento, e pediu que o funcionário coloque o horário do atendimento. “Tem de pedir o comprovante com a hora no documento, pois essa será a prova para embasar a ação”, esclarece Claudia. “A senha de atendimento foi a prova que usei. Na hora do atendimento, anotei o horário e pedi o carimbo”, complementa Santos.

A assessoria do Banco do Brasil repassou a informação de que a instituição financeira não acredita que ocorra uma “onda” de ações do gênero, pois o caso de Santos é considerado “atípico”. Ainda segundo a assessoria, o banco continua investindo na melhoria do atendimento ao público. Somente em 2010 foram contratados 800 novos colaboradores somente para o serviço direto ao cliente. Além disso, o Banco do Brasil possui canais abertos para “escutar” as sugestões dos clientes.

O professor também processou o banco Bradesco pela espera de 48 minutos na fila do caixa no dia 9 de agosto. No primeiro momento, a justiça condenou o banco a pagar R$ 800 a Santos, também por danos morais. O Bradesco recorreu e a ação continua em andamento. Em nota, o banco informou que “o assunto está sub judice” e não quis comentar.

Mudança no atendimento
Com o dinheiro em mãos, Santos planeja “investir” o dinheiro na produção de cartazes e panfletos para mostrar as pessoas como é simples ingressar com a ação. “Não é pelo dinheiro. A minha intenção é que os bancos cumpram a lei. A ideia é que várias pessoas entrem com ações. Desta maneira, os bancos terão que melhorar o atendimento. Não pode mais ter dois caixas para atender todo o público. Além de tudo, é desumano com o próprio funcionário”, afirma.

Para a advogada do Procon-PR, desde a criação da lei a situação mudou, mas ainda não é a ideal. A solução seria a união da sociedade e a fiscalização das entidades responsáveis. “A mobilização social é muito importante. Mas os órgãos precisam fiscalizar e multar e o legislativo precisa determinar a forma de compensação ao consumidor. Somente a conjunção de fatores irá mudar a situação”, diz Claudia Silvano.

O preço de não escutar a natureza

Leonardo Boff *

O cataclisma ambiental, social e humano que se abateu sobre as três cidades serranas do Estado do Rio de Janeiro, Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo, na segunda semana de janeiro, com centenas de mortos, destruição de regiões inteiras e um incomensurável sofrimento dos que perderam familiares, casas e todos os haveres tem como causa mais imediata as chuvas torrenciais, próprias do verão, a configuração geofísica das montanhas, com pouca capa de solo sobre o qual cresce exuberante floresta subtropical, assentada sobre imensas rochas lisas que por causa da infiltração das águas e o peso da vegetação provocam frequentemente deslizamentos fatais.

Culpam-se pessoas que ocuparam áreas de risco, incriminam-se políticos corruptos que destribuíram terrenos perigosos a pobres, critica-se o poder público que se mostrou leniente e não fez obras de prevenção, por não serem visíveis e não angariarem votos. Nisso tudo há muita verdade. Mas nisso não reside a causa principal desta tragédia avassaladora.

A causa principal deriva do modo como costumamos tratar a natureza. Ela é generosa para conosco pois nos oferece tudo o que precisamos para viver. Mas nós, em contrapartida, a consideramos como um objeto qualquer, entregue ao nosso bel-prazer, sem nenhum sentido de responsabilidade pela sua preservação nem lhe damos alguma retribuição. Ao contrario, tratamo-la com violência, depredamo-la, arrancando tudo o que podemos dela para nosso benefício. E ainda a transformamos numa imensa lixeira de nossos dejetos.

Pior ainda: nós não conhecemos sua natureza e sua história. Somos analfabetos e ignorantes da história que se realizou nos nossos lugares no percurso de milhares e milhares de anos. Não nos preocupamos em conhecer a flora e a fauna, as montanhas, os rios, as paisagens, as pessoas significativas que ai viveram, artistas, poetas, governantes, sábios e construtores.

Somos, em grande parte, ainda devedores do espírito científico moderno que identifica a realidade com seus aspectos meramente materiais e mecanicistas sem incluir nela, a vida, a consciência e a comunhão íntima com as coisas que os poetas, músicos e artistas nos evocam em suas magníficas obras. O universo e a natureza possuem história. Ela está sendo contada pelas estrelas, pela Terra, pelo afloramento e elevação das montanhas, pelos animais, pelas florestas e pelos rios. Nossa tarefa é saber escutar e interpretar as mensagens que eles nos mandam. Os povos originários sabiam captar cada movimento das nuvens, o sentido dos ventos e sabiam quando vinham ou não trombas d'água. Chico Mendes com quem participei de longas penetrações na floresta amazônica do Acre sabia interpretar cada ruído da selva, ler sinais da passagem de onças nas folhas do chão e, com o ouvido colado ao chão, sabia a direção em que ia a manada de perigosos porcos selvagens. Nós desaprendemos tudo isso. Com o recurso das ciências lemos a história inscrita nas camadas de cada ser. Mas esse conhecimento não entrou nos currículos escolares nem se transformou em cultura geral. Antes, virou técnica para dominar a natureza e acumular.

No caso das cidades serranas: é natural que haja chuvas torrenciais no verão. Sempre podem ocorrer desmoronamentos de encostas. Sabemos que já se instalou o aquecimento global que torna os eventos extremos mais freqüentes e mais densos. Conhecemos os vales profundos e os riachos que correm neles. Mas não escutamos a mensagem que eles nos enviam que é: não construir casas nas encostas; não morar perto do rio e preservar zelosamente a mata ciliar. O rio possui dois leitos: um normal, menor, pelo qual fluem as águas correntes e outro maior que dá vazão às grandes águas das chuvas torrenciais. Nesta parte não se pode construir e morar.

Estamos pagando alto preço pelo nosso descaso e pela dizimação da mata atlântica que equilibrava o regime das chuvas. O que se impõe agora é escutar a natureza e fazer obras preventivas que respeitem o modo de ser de cada encosta, de cada vale e de cada rio.

Só controlamos a natureza na medida em que lhe obedecemos e soubermos escutar suas mensagens e ler seus sinais. Caso contrário teremos que contar com tragédias fatais evitáveis.

* Teólogo, filósofo e escritor

O amor incondicional contra a intolerância

Marcelo Barros para Adital*

Há um ano, uma vasta região do Haiti era destruído por um terremoto que matou milhares de pessoas e deixou o país devastado. O Haiti, já secularmente vítima da dominação estrangeira e da corrupção política, agora, sofre mais ainda para se reerguer. De todas as imagens terríveis que feriram a sensibilidade das pessoas solidárias, certamente, uma das mais chocantes foi ouvir George Samuel Antoine, cônsul do Haiti, dizer na televisão que aquela tragédia tinha se abatido sobre o seu país como castigo divino porque o povo praticava o Vodu e tinha feito um pacto com o demônio para se tornar politicamente independente. Para aquele diplomata, o povo negro do Haiti só conseguiu se libertar da escravidão francesa e depois da dominação norte-americana porque se aliou ao demônio. A Teologia da Libertação descobre em todo verdadeiro processo de libertação o Espírito Divino está presente e atuante. Ao contrário, o sistema opressor parece insistir que é mais de Deus quem se deixa escravizar.

Ainda bem que, nestes dias, no Brasil, não surgiu ninguém que tente explicar com argumentos religiosos as inundações e tantas vítimas fatais de deslizamentos de morros no Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Talvez no seio de suas congregações, ainda há pastores e mesmo um ou outro padre católico arautos de uma divindade capaz de assassinar pessoas inocentes somente para impor sua vontade e seus preceitos a uma humanidade descrente. De fato, pesquisas revelam: em um mundo inseguro e sem referências éticas claras, os movimentos religiosos que mais crescem são os mais fanáticos e fechados em seu dogmatismo. Eles agrupam principalmente jovens e pessoas carentes de segurança interior e institucional. Tanto grupos cristãos, como muçulmanos, judeus e hindus fundamentalistas pensam que Deus assinou um contrato de exclusividade com eles e só a sua religião, Igreja ou grupo detém a verdade e o direito de existir.

No Brasil, este tipo de fenômeno tem provocado discriminações e até perseguições a alguns grupos espirituais, como por exemplo, comunidades de tradição afro-descendente. Apesar da Constituição Brasileira defender a liberdade de culto para todas as tradições religiosas, ainda existem programas de rádio e televisão nos quais se pregam a intolerância e se combatem as religiões negras.

No início do ano de 2000, no Rio de Janeiro, Mãe Gilda, sacerdotisa do Candomblé, viu duas vezes o seu templo ser invadido por pessoas de uma Igreja neo-pentecostal. Estas invadiram o lugar e destruíram os assentamentos dos Orixás. E no dia 21 de janeiro, Mãe Gilda viu estampada no jornal "A Folha Universal", uma foto sua com a legenda: "Macumbeiros ameaçam a vida e o bolso dos clientes". Ao ver aquilo, aquela senhora idosa teve um infarto e faleceu. Para que não se repitam mais fatos como este, em 2007, o presidente Lula assinou uma portaria determinando que, a cada ano, 21 de janeiro seja considerado o "Dia Nacional contra a Intolerância Religiosa".

É claro que para acabar com a intolerância cultural e religiosa, não basta uma lei ou decreto. É preciso transformarmos interiormente o processo da fé. Muitas confissões religiosas ainda confundem a verdade com uma forma cultural de expressar a verdade. Por isso absolutizam seus dogmas e tendem a se fechar em certo autoritarismo fundamentalista, inclusive as que parecem mais liberais. Daí, facilmente, se justificam conflitos e até guerras em nome de Deus. Em 1965, em um dos seus mais belos documentos, (a declaração Nostra Aetate), o Concílio Vaticano II proclamava o valor das outras religiões e incentivava os católicos do mundo inteiro ao respeito ao diferente e ao diálogo. Também, em 1961, o Conselho Mundial de Igrejas, que reúne mais de 340 Igrejas evangélicas e ortodoxas, pediu às Igrejas uma atitude de respeito e diálogo com todas as culturas e colaboração com outras tradições religiosas.

Atualmente, a diversidade religiosa no mundo é, não somente um fato atual que, queiramos ou não, se impõe à humanidade, mas uma graça divina e uma bênção para as tradições religiosas que, assim, podem se complementar e mutuamente se enriquecer. Para que este diálogo seja verdadeiro e profundo, cada grupo religioso tem de reconhecer o elemento de verdade que existe no outro e se abrir ao que Deus nos revela, não somente a partir de nossa própria tradição, mas do caminho religioso do outro. Para esta abertura pluralista e para o diálogo daí decorrente vale o que, no século IV, dizia Santo Agostinho: "Apontem-me alguém que ame e ele sente o que estou dizendo. Dêem-me alguém que deseje, que caminhe neste deserto, alguém que tenha sede e suspira pela fonte da vida. Mostre-me esta pessoa e ela saberá o que quero dizer" (1).

Nota:

(1) AGOSTINHO, Tratado sobre o Evangelho de João 26, 4. Cit. por Connaissance des Pères de l'Église32- dez. 1988, capa.

* Monge beneditino e escritor

ICMS preocupa o governo

por Ivan Schmidt

O deputado federal Luiz Carlos Hauly (PSDB), com mandatos sucessivos na Câmara desde o início da década de 90, foi convocado pelo governador Beto Richa para a importante missão de chefiar a área econômica da administração estadual, ao confiar-lhe o posto de secretário da Fazenda.

Hauly é um dos quadros mais qualificados do tucanato local, graças à longa experiência adquirida no trato das questões políticas e econômicas postas sob o crivo do Congresso, onde teve atuação destacada como vice-líder da bancada governista nos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso e, articulado oposicionista ao governo de Lula. Hauly ocupou esse mesmo cargo no governo Alvaro Dias, tendo sido antes prefeito de Cambé, município vizinho a Londrina.

Em conversa informal com esse repórter na manhã do último domingo, o secretário afirmou que um dos desafios mais urgentes da pasta é a resolução dos problemas relativos ao Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), não apenas a maior fonte de arrecadação estadual, mas igualmente o setor mais suscetível ao afloramento de preocupações (não poucas e nem pequenas) para o gestor público. Nesse aspecto, a preocupação de Hauly é legítima, pois as sondagens iniciais deram conta de algum percentual alarmante em relação ao peso da folha de pagamentos do funcionalismo no Orçamento estadual.

Naquele exato momento, há uma semana, o secretário ainda carecia dos números consolidados que encomendara à equipe técnica da pasta, a fim de formular um juízo mais aprofundado sobre a real situação econômico-financeira do Estado e, obviamente, apresentar as informações ao chefe do Executivo. Mas de uma coisa o secretário Luiz Carlos Hauly está convencido: o Paraná precisa continuar a se desenvolver com base num projeto agressivo e inteligente de atração de novas empresas, sobretudo de empresas que não sejam do mesmo ramo das que já estão instaladas aqui. Para o secretário, haveria pouco ganho real na atração de uma empresa com as mesmas características de produção de bens ou serviços das já instaladas.

O modelo induzido de crescimento do Paraná, segundo Hauly, deverá priorizar empresas que, ao se instalarem em nosso território, contribuam em níveis elevados com a inovação tecnológica, a abertura de novos mercados e, acima de tudo, com a absorção desejada de grande parte da oferta de mão de obra, especialmente a que está sendo treinada por nossas universidades e escolas técnicas para a ocupação desse espaço. Ainda de acordo com o secretário, tão logo o governador assumiu, deixando claro que o relacionamento do ente administrativo com o setor privado passaria por uma transformação concreta em termos de reciprocidade, houve sinalização favorável de parte de vários grupos importantes quanto ao interesse de se estabelecer no Paraná.

Contudo, o secretário lembrou que a política cambial da União acaba agindo como um forte empecilho à implantação de novos projetos empresariais, enfatizando com a situação vivida pelos setores direcionados para a exportação, por exemplo, que pouca vantagem alcançam nas vendas feitas no mercado exterior. Nesse sentido, o dado mais emblemático vem do agronegócio, cujo volume de vendas aumentou na razão direta da crescente procura por commodities agrícolas, das quais o Paraná é grande produtor, embora isso não traga vantagens expressivas para o setor em função da excessiva desvalorização da moeda norte-americana.

Sobre temas políticos, Hauly comentou as diferenças de estilo entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a sucessora, Dilma Roussef, lembrando que a presidente parece demonstrar alguma dificuldade em termos da conciliação das partes heterogêneas que formam seu governo, terreno no qual Lula deitou e rolou. No ambiente doméstico, assinalou que o único projeto viável e consistente passa, necessariamente, pela liderança do governador Beto Richa. “O governador tem grande futuro”, ponderou.

Ivan Schmidt é jornalista.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Secretaria da Fazenda emite nota oficial sobre documento que teria sido fraudado

SECRETARIA DE ESTADO DA FAZENDA

NOTA OFICIAL


Em esclarecimento a matéria veiculada hoje, 14/01, no jornal Gazeta do Povo sobre suspeição de fraude em documentos públicos oficiais, o Secretário de Estado da Fazenda, Luiz Carlos Hauly, informa que ao tomar conhecimento de possível irregularidade na edição da resolução n° 118/2010-SEFA (publicada no Diário Oficial de 30 de dezembro de 2010) em função do então titular da pasta à época, Heron Arzua, ter declarado que não havia assinado o referido ato tomou imediatas providências para coibir quaisquer danos ao erário.

Ressalta-se que a iniciativa de revogação do ato imperfeito teve o fim de proteger o Estado do Paraná, e seus servidores, de eventuais prejuízos funcionais e financeiros.

A revogação da resolução deu-se por ato assinado pelos Secretários da Fazenda e Administração, Luiz Carlos Hauly e Luiz Eduardo da Veiga Sebastiani, também publicada no Diário Oficial do Estado do Paraná.

Esclarece-se ainda que processo pertinente está sendo encaminhado à Corregedoria Geral do Estado para as providências administrativas e judiciais cabíveis ao fato.


Curitiba, 14 de janeiro de 2011.

Gabinete do Secretário de Estado da Fazenda





Curitiba, 14 de janeiro de 2011.


Gabinete do Secretário de Estado da Fazenda

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

BC acaba com exclusividade de banco na concessão de crédito consignado

folhaonline

O Banco Central proibiu a assinatura de convênios entre bancos e empresas prevendo exclusividade na concessão de crédito, em especial operações com desconto em folha (consignado).

Nos últimos anos, vários governos estaduais e municipais venderam suas folhas de pagamento para bancos estatais e privados. Nessas vendas, ficava estabelecido que os funcionários só poderiam pegar empréstimos com desconto em folha no banco em que é feito o pagamento do salário.

Agora, as negociações de folha de pagamento não poderão ter mais essa cláusula de exclusividade.

Segundo o BC, a medida tem como objetivo facilitar o acesso ao crédito e contribui para redução dos "spreads" bancários, que é a diferença entre o que o banco paga e a taxa repassada ao cliente.

Essa cláusula de exclusividade era uma das principais reclamações dos bancos de médio e pequeno porte, que travam na Justiça uma briga, principalmente, com o Banco do Brasil.

Cuba faz declaração sobre provocação dos Estados Unidos

Na última quinta-feira (13) altos funcionários estadunidenses que se encontravam em Havana para conversações oficiais com o governo cubano sobre temas migratórios reuniram-se com um grupo de mercenários. O governo cubano protestou através de nota oficial. Leia a íntegra

Em 13 de janeiro de 2011, aproveitando a visita que realizaram a Cuba, para participar na rodada de conversações migratórias, a chefe da delegação norte-americana, Roberta Jacobson, subsecretária assistente principal para assuntos do Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado, acompanhada pela subsecretária assistente para a América Central, Caribe e Cuba, Julissa Reynoso, o chefe do Escritório de Assuntos Cubanos, Peter Brennan e o chefe da Seção de Interesses dos Estados Unidos em Havana, Jonathan Farrar, se reuniram com um grupo de mercenários, cujas atividades contra a ordem constitucional cubana são dirigidas e financiadas pelo governo dos Estados Unidos.

Antes da realização da rodada migratória, o Ministério das Relações Exteriores apresentou claramente aos representantes do governo dos Estados Unidos seu rechaço a qualquer intento de utilizar esta visita de caráter oficial a Cuba para realizar atividades ofensivas e desrespeitosas para com nosso país.

O Ministério das Relações Exteriores de Cuba denuncia esta provocação aberta de altos funcionários do Departamento de Estado, que constitui uma violação flagrante dos princípios e das normas internacionais que regem as relações entre os Estados e uma ofensa a nosso povo que por mais de 50 anos tem enfrentado a política de hostilidade e bloqueio do governo dos Estados Unidos. Esta ação confirma uma vez mais que não há mudanças na política de subversão e ingerência dos Estados Unidos nos assuntos internos de Cuba e que sua prioridade continua sendo alentar a contrarrevolução interna e promover atividades de desestabilização, enquanto simultaneamente recrudesce o bloqueio e a perseguição das transações comerciais e financeiras cubanas em todo o mundo.

O Ministério das Relações Exteriores, ao reiterar a disposição já manifestada pelo governo cubano de manter um diálogo respeitoso sobre qualquer tema com o governo norte-americano, sempre que este seja entre iguais, sem menoscabo à independência, soberania e autodeterminação de nosso país, ratifica que não tolerará ingerência alguma dos Estados Unidos nos assuntos internos de Cuba e utilizará todos os mecanismos políticos e legais a seu alcance para enfrentá-la.

O Ministério das Relações Exteriores de Cuba

Fonte: Prensa Latina

Hermas Brandão rompe relações com Beto Richa

Conselheiro do TC e ex-presidente da Assembleia acusa governador de ter nomeado adversário político para secretaria

bem paraná

O conselheiro do Tribunal de Contas e ex-presidente da Assembleia Legislativa, Hermas Brandão, afirmou ontem ter rompido relações políticas e de amizade com o governador Beto Richa (PSDB). Um dos mais influentes aliados do tucano, Brandão acusa Richa de ter nomeado um adversário político, o deputado Luiz Cláudio Romanelli (PMDB), como secretário de Estado do Trabalho. Segundo ele, Romanelli - que se reelegeu deputado no ano passado - fez campanha contra o governador na eleição de 2010. Além disso, o peemedebista também teria alimentado denúncias contra seu neto, Evandro Júnior (PSDB), vereador de Maringá eleito deputado estadual em 2010.

“Não tinha nada contra o Romanelli como pessoa, mas politicamente não podia admitir”, afirmou. “Ele (Romanelli) fez discurso na campanha dizendo que o Beto não tinha carteira de trabalho, porque nunca trabalhou na vida”, contou Brandão, cuja família tem base eleitoral na região do Norte do Estado, onde Romanelli também milita politicamente. Além do neto Evandro Júnior, o filho do conselheiro, Hermas Brandão Júnior (PSB), também conquistou vaga na Assembleia na última eleição.

O conselheiro, que deixou ontem a presidência do TC, disse que avisou ao governador que romperia relações com ele caso Romanelli fosse nomeado. Richa não teria levado a ameaça à sério e insistido na nomeação, com a alegação de garantir o apoio da bancada do PMDB na Assembleia. “Pelo menos oito dos treze deputados do PMDB estariam com o Beto de qualquer maneira”, avalia Brandão, que mesmo afastado oficialmente da política, continua tendo grande influência.

O ex-presidente da Assembleia deixa claro que não tem nenhuma intenção de reatar relações com o governador. Segundo ele, Richa tem lhe procurado insistentemente, e teria inclusive oferecido a possibilidade de seu grupo fazer indicações para cargos no governo estadual na tentativa de se reaproximar do antigo aliado. “Não quero nada. Não preciso de governo. Prefiro ficar com meus companheiros do interior do que ficar com o governador”, desabafou.

Assembleia — Apesar do rompimento, Brandão negou estar por trás da articulação para a formação de uma chapa contrária ao candidato do governo à presidência da Assembleia, deputado Valdir Rossoni (PSDB). “Vou manter minha palavra. Não tenho interferência. Não quero dar oportunidade ao Rossoni falar de mim o que eu falo dele. Meu neto e meu filho vão votar nele”, garantiu. Mesmo ressaltando não estar envolvido na discussão sobre as eleições para o comando do Legislativo, que presidiu entre 2001 e 2006, Brandão confirma, porém, haver resistência entre os deputados ao nome do tucano.

Desde a semana passada, crescem os rumores de que o deputado Nelson Garcia (PSDB), aliado de Brandão, pretende formar uma chapa alternativa para concorrer com Rossoni. Na quarta-feira, a assessoria do parlamentar confirmou a intenção de Garcia de concorrer. O grupo de Brandão apoiava a candidatura do deputado Durval Amaral (DEM) à presidência da Assembleia. Amaral se retirou da disputa à pedido do governador, e em troca foi nomeado chefe da Casa Civil do governo.

Garcia já teria obtido a garantia de apoio de parlamentares do PSDB, PMDB, PSB, PSC e PV e de parlamentares da futura base aliada descontentes com a divisão dos cargos de segundo e terceiro escalão no governo. Na terça-feira, o deputado Osmar Bertoldi (DEM) anunciou a decisão de não integrar a base do governo, por também não concordar com a cooptação do PMDB, que na eleição, apoiou a candidatura do senador Osmar Dias contra Beto Richa. Bertoldi acusou o governo Richa de ter se tornado “uma geleia” ao atrair adversários com cargos em troca de apoio político.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Frei Betto: Cuba rumo a mudanças

As reformas anunciadas significam maior democratização do socialismo. O Estado deixa de ser o grande provedor para se tornar o principal indutor do desenvolvimento.

Por Frei Betto*, no Brasil de Fato

Cuba marcou para abril deste ano o VI Congresso do Partido Comunista. Isso significa mudanças profundas no país. Um documento preliminar – Projeto de Orientações da Política Econômica e Social –, divulgado em novembro, agora é debatido pela população.

A situação econômica cubana é crítica, agravada por fatores externos: crise econômica mundial, que reduziu as vias de financiamento externo; redução do preço das exportações em 15%; recrudescimento do bloqueio econômico imposto pela Casa Branca. Hoje, o principal “produto” de exportação de Cuba é a prestação de serviços, em especial na área da saúde.

Fatores climáticos influem também na deterioração da economia: 16 furacões, entre 1998 e 2008, causaram prejuízos no valor de 20,5 bilhões de dólares (metade do PIB), e foram consideráveis as perdas em decorrência das secas de 2003, 2005 e nos dois últimos anos.

Some-se a isso a dívida externa, a baixa eficiência laboral, a descapitalização da base produtiva e da infraestrutura, e o envelhecimento populacional, agravado pelo reduzido índice de natalidade.

Como saída para a crise, o documento propõe o fim da libreta de abastecimento, cujos produtos são subsidiados, compensado por aumento salarial; cultivar terras ociosas (a ociosidade atinge 50% das terras agricultáveis); reestruturar o sistema de empregos, de modo a reduzir o paternalismo estatal e ampliar o leque de iniciativas não estatais; aplicar política salarial mais rigorosa, eliminando subsídios pessoais excessivos.

Prevê-se ainda diminuir a dependência de produtos importados e diversificar as exportação de bens e serviços; buscar novas fontes de financiamento para recapitalizar o sistema produtivo do país; abrir-se ao capital estrangeiro; e eliminar a dupla moeda. Hoje, os cubanos dispõem de pesos e, os turistas, de CUC, o peso conversível. São necessários 24 pesos para se adquirir 1 CUC, cotado a US$ 1,25.

Apesar das dificuldades, aos 11 milhões de cubanos o Estado assegura os três direitos fundamentais: alimentação, saúde e educação. Cuba não intenciona retornar ao capitalismo. O documento enfatiza que “só o socialismo é capaz de vencer as dificuldades e preservar as conquistas da Revolução, pois a atualização do modelo econômico primará pela planificação e não pelo mercado.”

Cuba é uma nação que se destaca pela solidariedade internacional. De 1961 a 2009 diplomaram-se na ilha, gratuitamente, 55.188 jovens de 35 países, dos quais 31.528 de nível universitário. Hoje, há 29.894 bolsistas estrangeiros em diferentes especialidades, dos quais 8.283 cursando a Escola Latino-Americana de Medicina (inclusive centenas de brasileiros, que ainda não tiveram seus diplomas revalidados em nosso país).

Prestam serviço, em 25 países, 1.082 educadores cubanos. O método de alfabetização de Yo si, puedo, já habilitou à leitura 4.900.967 adultos de 28 países e erradicou o analfabetismo na Venezuela, na Nicarágua e na Bolívia. (Inclusive ensinou Tiririca a ler).

Na área da saúde, Cuba atua em 78 países, com 37.667 colaboradores, dos quais 16.421 são médicos. A Operação Milagro, iniciada em 2004, já atendeu gratuitamente, em quase toda a América Latina, cerca de 2 milhões de pacientes com problemas oftalmológicos, como catarata.

Cuba caminha no rumo do modelo chinês? Em discurso na Central de Trabalhadores de Cuba, em novembro, Raúl Castro afirmou: “Não estamos copiando nenhum país”. Deixou claro que se busca um caminho “autônomo, ajustado a nossas características, sem renunciar minimamente à construção do socialismo”.

Cuba está convencida de que a completa estatização da economia é inviável. Daí a proposta de manter empresas estatais ao lado de outras de capital misto, bem como modalidades diversas de iniciativas não estatais, como cooperativas, terras arrendadas e prestação de serviços por conta própria.

Para se evitar a corrupção em contratos com o exterior, Cuba aplicará este princípio: quem decide não negocia e quem negocia não decide.

Com as futuras reformas, mais de 1 milhão de cubanos devem perder seus empregos na estrutura estatal. Um duplo desafio se impõe à Revolução: a requalificação profissional dos desempregados, a fim de se evitar a contravenção, o narcotráfico e a economia paralela, e o incremento da emulação ideológica, em especial dos jovens, de modo a evitar que a Revolução se torne um fato do passado e de manter a prevalência dos valores subjetivos sobre a mercantilização dos costumes incutida pelo neoliberalismo.

Entre furacões e sabotagens, a Revolução cubana resiste há 53 anos. Seu maior mérito é o de assegurar condições dignas de vida a 11 milhões de habitantes da ilha e não medir esforços na solidariedade aos povos mais pobres do mundo.

As reformas anunciadas significam maior democratização do socialismo. O Estado deixa de ser o grande provedor para se tornar o principal indutor do desenvolvimento. E convoca os cidadãos a serem os protagonistas de um socialismo com a cara do século XXI.

* Frei Betto é escritor, autor de “Cartas da Prisão” (Agir), entre outros livros.

Chávez propõe um partido para as lutas do povo e o socialismo

Num pronunciamento em que criticou o burocratismo, a cultura política capitalista e a inércia da máquina eleitoral, o líder da Revolução Bolivariana, em encontro realizado na terça-feira (11) em Caracas com dirigentes do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), fez um chamamento a que o partido seja efetivamente um líder das lutas do povo e um poderoso instrumento de propaganda, agitação e comunicação.

Após uma reunião com a direção do PSUV, do qual é o principal dirigente, Chávez deu a conhecer as cinco Linhas de Ação Estratégicas para um eficiente funcionamento dessa força com vistas às eleições de 2012.

A primeira, disse, é passar da cultura política capitalista à militância e cultura socialistas.

Acrescentou que é urgente, em segundo lugar, transformar a organização do PSUV num partido-movimento a serviço das lutas concretas do povo, o que alguns chamam de política prática.

"Não podemos ficar somente na teoria", disse Chávez, e fez um chamamento a fazer política em cada bairro, em cada comunidade com o objetivo de tonar a vida melhor para os venezuelanos.

Essa é uma das estratégias fundamentais do partido para deixar de ser uma máquina eleitoral, afirmou o líder da Revolução Bolivariana.

Chávez enumerou como terceira linha, a importância de transformar o PSUV em um poderoso instrumento de propaganda, agitação e comunicação.

Em quarto lugar, destacou a necessidade de passar da inércia da máquina partidária, para liderar a luta do povo e desenvolver o poder popular, a fim de que se converta em sujeito histórico.

Avançar para a construção de um grande Polo Patriótico em uma audaz política de repolarização, reunificação e repolitização, é a quinta linha, detalhou o presidente do PSUV e estadista.

Chávez ressaltou que no país há dois polos representados na Assembleia Nacional, que se transformou num importante espaço de debate político onde a oposição mostrará seus verdadeiros interesses.

O mandatário informou que a direção nacional do PSUV trabalhou na minuta do documento denominado Linhas Estratégicas de Ação Política do Partido, que será apresentado no dia 21 de janeiro em um encontro nacional com a presença de mais de 1.440 dirigentes revolucionários.

Na última terça-feira (11), a direção nacional do PSUV debateu estas linhas estratégicas com o objetivo de acertar os detalhes sobre as ações da organização no período de quase dois anos que antecede as eleições para presidente da República, governadores e prefeitos.

Ao apontar essas cinco linhas estratégicas, Chávez retoma o debate sobre a construção da vanguarda política da revolução democrática, popular e anti-imperialista que está em curso no país, num esforço voltado acima de tudo para a conscientização e mobilização do povo e a unidade das forças avançadas, demonstrando que a ação política de um partido revolucionário não se limita às eleições, à ocupação de cargos públicos e ao manejo de aparatos de governo.

Com informações da agência Prensa Latina

Pacto político adiou investigação sobre cunhado lobista de Geraldo Alckmin

Um pacto político celebrado em 2006 adiou a investigação das atividades de um lobista que é cunhado do governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB), para não prejudicar sua campanha presidencial, naquele ano.

A revelação é de uma reportagem de Fausto Macedo em O Estado de S. Paulo desta quinta-feira.

Segundo o jornal, políticos de Pindamonhangaba, cidade onde nasceu Alckmin, fizeram o pacto para blindar o tucano que era candidato à Presidência, retardando medidas para investigar o escândalo que envolve seu cunhado, Paulo Ribeiro, o Paulão, em um esquema de corrupção e tráfico de influência.

Documento subscrito por 11 vereadores da cidade diz expressamente que o prefeito João Ribeiro (PPS), apadrinhado de Alckmin, teria se comprometido a "tomar providências" sobre denúncias de desvios na administração "após as eleições".

O documento foi redigido em 27 de outubro de 2006, a dois dias do segundo turno das eleições presidenciais. "O objetivo era impedir que (o escândalo) respingasse no Geraldo", conta João Bosco Nogueira, ex-vice prefeito de Pindamonhangaba, que rompeu com João Ribeiro após se insurgir contra movimentos de Paulão no governo municipal. Paulão é irmão da primeira dama, Lu Alckmin

Decisão de Peluso sobre Battisti justifica impeachment

No processo de extradição passiva 1085, onde o requerido era o escritor Cesare Battisti, o Supremo Tribunal Federal julgou dois aspectos. Um foi a admissibilidade de extradição, o outro foi a faculdade do Chefe de Estado para decidir sobre a execução efetiva do ato extradicional. Ambas as questões foram decididas na sessão de 18/11/2009.

Carlos A. Lungarzo*

Como é bem sabido, o tribunal autorizou a extradição por 5 votos contra 4. No final da sessão, foi colocado em votação o direito do presidente para executar ou indeferir a extradição.

Os cinco ministros (Marco Aurélio, Joaquim Barbosa, Ayres Britto, Carmen Lúcia e Eros Grau) votaram que o chefe de Estado poderia decidir, de maneira discricionária. Já os ministros Peluso, Mendes, Lewandowski e Ellen Gracie votaram contra.

Todavia, no dia 16 de dezembro, por causa de uma moção de ordem colocada pela Itália, a questão foi reaberta, provocando indignação nos juízes Marco Aurélio e Britto. Durante o debate, Peluso tentou pressionar Eros Grau para que votasse contra o que fora decidido na sessão anterior. Grau reclamou de estar sendo mal interpretado, mas acabou aceitando que a discricionariedade do presidente ficaria limitada pelo Tratado de Extradição entre o Brasil e a Itália.

Finalmente, o documento que ficou aprovado e foi publicado no acórdão de abril de 2010, disse, com outras palavras, que: autorizada a extradição pelo STF, o presidente fica facultado a executar a extradição ou a recusar sua aplicação, desde que, para tanto, se baseie no Tratado.

De fato, esta “liberdade” que o STF deu ao presidente não era necessária: a Constituição Federal considera o chefe de estado como representante da nação na política internacional e, além disso, toda a jurisprudência anterior, sem exceção, afirma o direito do presidente de escolher entre acatar o parecer de extraditar ou rejeitá-lo. É significativo que, alguns dias antes, o STF tivesse autorizado uma extradição ao Estado de Israel, deixando ao presidente o direito de decidir. Aliás, o sistema “misto” de extradição (usado no Brasil e em quase todos os países) determina que o judiciário “proteja” o extraditando, proibindo ao executivo sua extradição, se houvesse motivo para isso, mas autorizando quando a situação fosse legalmente viável. Nesse caso, ficaria a critério do presidente aproveitar a autorização ou reter o estrangeiro.

Mesmo assim, foi muito bom que o STF chegasse a uma decisão explícita sobre isso. Se, mesmo assim, o ministro Peluso decidiu alterá-la, o que ele poderia ter feito sem uma decisão explícita?

Na sessão em que foi votada esta matéria, por causa das constantes pressões de Mendes e, sobretudo, de Peluso, Eros Grau parecia muito nervoso, mas ainda assim a decisão final da corte foi clara. Posteriormente, Grau tratou o problema com maior detalhe numa matéria que publicou no Consultor Jurídico, em 29/12/2009.

Após alguns argumentos muito precisos, Grau disse que o presidente pode recusar a extradição autorizada pelo tribunal nos termos do Tratado. Pode fazer isso em alguns casos que não são examináveis pelo tribunal, e menciona precisamente o artigo 3º, I, que foi o utilizado por Lula. A idéia do magistrado, coerente com toneladas de jurisprudência e doutrinas internacionais, é que o presidente pode negar a extradição por um fundado temor de perseguição do estrangeiro no país requerente, mas esse temor não pode ser avaliado pelo judiciário. Como responsável pela política externa, é o Executivo e seus assessores os que melhor podem “sentir” se há perigo ou não.

O Tratado entre o Brasil e a Itália

Esse Tratado foi assinado em Roma em outubro de 1989, aprovado por Decreto Legislativo no Brasil em novembro de 1992, e finalmente aprovado por Decreto em julho de 1993. Nos artigos 3º, 4º e 5º se enunciam condições que exigem a recusa da extradição. O artigo 4º não é relevante neste caso, pois proíbe a extradição a países onde há pena de morte, o que não acontece na Itália.

O artigo 3º e o 5º são ambos aplicáveis ao caso Battisti. No item I, inciso (f) do artigo 3º, proíbe-se a extradição quando existam motivos para pensar que o requerido possa ser perseguido por pertinência a algum grupo designado (racial, religioso, político, etc.), ou sua situação pudesse ser agravada por causa disso.

No artigo 5º, (a) também se veda a extradição quando a pessoa reclamada “tiver sido ou vier a ser” submetida a um processo sem direito de defesa. Battisti não teria novo julgamento, e ele já tinha sido submetido a um julgamento em ausência, sem provas, sem testemunhas, com advogados falsos e com base em alguns documentos falsificados. Este ponto aplica-se plenamente. O inciso (b) se refere ao perigo de que o extraditado possa sofrer a violação de seus direitos humanos básicos, o que é evidente, tendo em conta as práticas de tortura e tratos degradantes aplicados na Itália a presos políticos, e as ameaças de morte contra ele proferidas por sindicatos (carabineiros e policiais), por associações neofascistas, e até por alguns políticos.
Parecer da AGU e decisão do presidente

No dia 31 de Dezembro de 2010, o presidente Lula fez conhecer sua decisão sobre a extradição, recusando sua aplicação e retendo Cesare Battisti no país sob a figura jurídica de imigrante (residente permanente). A decisão foi publicada no Diário Oficial da União em sua edição adicional do próprio dia 31.

A decisão foi baseada no parecer emitido pela Advocacia Geral da União (AGU), assinado pelo advogado geral substituto, Albuquerque Faria, que o elaborou se fundamentando no parecer do consultor da União Arnaldo de Moraes Godoy.

O parecer é longo, consistente, articulado e detalhadamente fundamentado. Ele é mais do que suficiente para justificar o “fundado temor de perseguição”, pois o consultor se baseia em fatos notórios que são de domínio público. Ele aplica o item 3.I.f, argumentando que a situação de Battisti poderia se agravar na Itália, tendo em conta as grandes manifestações contra sua personalidade. É um fato que qualquer pessoa sem interesse em prejudicar Battisti, responderia de olhos fechados. Vejamos como seria a pergunta:

Uma pessoa estará segura, permanecendo presa num país onde centenas de pessoas vinculadas ao estado promovem manifestações de repúdio contra ele?

Se os inimigos o atacam com ódio, e até incluem Lula em seus ataques, a 10 mil Km, o que poderiam fazer se o tivessem em seu poder?.

Eventualmente, poderia acontecer que Battisti fosse preso e sobrevivesse na prisão, até porque o governo não gostaria, talvez, de matar alguém que é tão conhecido. Mas, isso tem uma probabilidade baixa. Os carcereiros italianos pertencem a uma federação de sindicatos de alcance nacional que várias vezes declarou seu desejo de “acertar contas” com o escritor. Aliás, o ministro La Russa manifestou como era grande seu desejo de torturar Battisti. Não se conserva nenhum registro de Adolf Hitler onde ele manifestasse seu desejo de torturar ninguém (embora sim, de matar).

O parecer é mais do que suficiente, mas cabe salientar que os autores manifestam várias vezes, seu grande respeito pelas instituições italianas. Também, afirmam que não terão em conta a fraude das procurações, embora não afirmem nem neguem sua existência. Tudo indica que os autores não queriam irritar a Itália, mas esse espírito pacífico não foi útil: de fato, o presidente do STF, Antonio Cezar Peluso, não procurava acordo, mas, pelo contrário, confronto, como veremos a seguir.

O Pedido de Soltura

No dia 3 de janeiro, a equipe de defesa de Battisti solicitou ao presidente do STF, Cezar Peluso, a soltura do ex-extraditando, com base no fato de que, uma vez extinta a extradição, a manutenção do estrangeiro em prisão era ilegal.

O chefe da equipe, o jurista Luís Roberto Barroso, apresentou junto com o pedido um raciocínio singelo:

Se o STF passou a Lula a responsabilidade pela decisão, cabe ao executivo também concluir essa decisão, colocando em liberdade o ex-extraditando. Ele faz notar que, se Lula tivesse decidido em favor da extradição, ele poderia entregar o prisioneiro à Itália e, sem dúvida, ninguém lhe pediria uma permissão do STF para fazer isto. Portanto, não cabe ao tribunal reavaliar o processo. Barroso acrescenta:

O julgamento já foi concluído, a decisão já transitou em julgado, e o processo de extradição já foi, inclusive, arquivado. Já não é possível, juridicamente, reabrir a discussão acerca da competência do presidente da República [...] Trata-se de dar cumprimento ao que foi decidido, em cumprimento às instituições.

Consistente com o fato de que o problema agora deixou de ser judicial, Barroso pede, também, que o Ministério da Justiça libere Battisti.

Peluso recebeu, na mesma época, uma ordem da Itália de manter Battisti preso, e como tinha feito pelo menos 7 vezes durante o julgamento, obedeceu. No dia 6 de janeiro disse que Battisti devia continuar preso, e que o assunto será encaminhado para o novo relator, Gilmar Mendes.

O deboche contra o Executivo e o próprio Judiciário fica evidente, mas o representante legal da Itália, com um raciocínio torpe e insultuoso, deixou isso ainda mais óbvio. O advogado da Itália disse, explicitamente, que Lula usurpou funções, porque deveria ter adotado como decisão o parecer do STF: extraditar. Embora o advogado não completasse o “raciocínio”, o que ele disse significava isto: o STF teria dado a Lula apenas a faculdade para decidir entre estas alternativas: (1) extraditar Battisti ou (2) extraditar Battisti. Quer dizer, que o STF teria dado a Lula a “liberdade” aparente de mostrar obediência. Este comentário é um grave insulto contra os juízes do STF que votaram em favor da decisão presidencial. No momento de negar a liberdade de Battisti pedida por Barroso, Peluso manifestou, de maneira oblíqua, o privilégio do STF para dar a última palavra. Ou seja, para a lógica do ex-relator, podem existir duas últimas palavras ou, então, a realidade é que a outorga da última palavra a Lula foi uma farsa.

Trata-se de uma amostra de desprezo capital não apenas contra o Executivo, mas também contra o Judiciário, pois significa que uma decisão tomada por um colegiado ou por um juiz, pode ser distorcida por alguém que se apresenta como dono absoluto da decisão.

Peluso ainda disse que não tinha certeza de que Battisti estaria em risco se voltasse a Itália. Cabe ao ministro Peluso apenas apreciar se Lula se pronunciou de acordo com o Tratado, mas não apreciar a subjetividade do presidente. Se a opinião de Lula estivesse sujeita à opinião do STF e este pudesse anulá-la, qual seria o valor do direito de decisão?.

Isto prova de maneira ainda mais contundente, que Peluso e Mendes assumiram aquela decisão do STF como uma formalidade que não pensavam cumprir, e que realmente sua intenção era extraditar o italiano passando por cima da decisão do presidente, e dos colegas que reconheceram o direito do executivo.
Reações qualificadas

O ministro do STF, Carlos Ayres Britto, afirmou logo em seguida de conhecida a decisão de Lula, que o presidente do STF, Cezar Peluso, pode decidir sozinho pela soltura imediata de Battisti. De acordo com Britto, sem a extradição cai o fundamento da prisão. Esta foi a opinião de muitos juristas e políticos, cuja lista não caberia neste artigo. Idêntica foi a manifestação de Marco Aurélio, que defendeu o direito de Battisti a ser liberado logo que a decisão de Lula tivesse sido publicada. O mesmo parecer foi o do jurista Dalmo de Abreu Dallari, que se estendeu detalhadamente sobre o tipo de arbitrariedade cometida por Peluso.
A teoria do golpe

Conhecida a negativa de Peluso a soltar Battisti, Luís Barroso, uma pessoa que surpreende por sua equanimidade e seu temperamento calmo, manifestou grande indignação. Afirmou que o ato de Peluso era uma espécie de golpe, e ainda acrescentou que essa “disfunção” parecia ter desaparecido da realidade brasileira. Ou seja, não duvidou em comparar o golpe de Peluso com outros golpes (disfunções). O ex-ministro Tarso Genro, agora governador de RS, qualificou estes fatos como ditadura.

Entre os mais famosos e violentos golpes acontecidos na América Latina, há diferenças de tipos de aliança, graus de cumplicidade e relevância dos papeis de diferentes agentes políticos. Na Argentina, onde os militares tiveram até 1982 um poder absoluto, em aliança com a Igreja e os latifundiários, as forças armadas controlaram a vida civil até nos breves períodos de aparente democracia. Por esse motivo, todos os golpes se originaram no ambiente militar e nos partidos políticos cúmplices, e geraram ditaduras onde o elemento castrense foi o principal.

No Chile e no Uruguai, países com tradição democrática e laica, com poucos golpes em sua história, os assaltos ao poder de 1973 deveram ser preparados por uma prévia campanha de provocação da imprensa, as empresas, a CIA e, no caso do Chile, o Judiciário. Já o Brasil foi um caso intermédio, onde os fatores de provocação foram deflagrados pelos grandes proprietários, os agentes americanos, e as organizações católicas que prepararam a Marcha que antecedeu o golpe.

Em Honduras, em 2009, o golpe corresponde a outra época, onde o papel militar está reduzido. As forças armadas atuaram principalmente na repressão popular e no sequestro e desterro do presidente Zelaya. A consagração da ditadura seguinte e a convocação das eleições fraudadas foram planejadas pela Suprema Corte.

Portanto, não é um argumento correto para negar que a ação do ministro Peluso seja um golpe, aduzir o caráter incruento e não militar da ação do juiz. Não sabemos qual foi o motivo desse ato provocativo contra o Executivo e o próprio Judiciário, mas ele pode ser visto como um golpe parcial. Ele não derrubou nenhum governo, e provavelmente não tenha interesse em fazê-lo, mas contribuiu a tornar mais frágil o executivo, e a subordinar o resto do judiciário.

É importante perceber que a decisão do presidente Lula foi imediatamente denegrida, a custa de quaisquer inverdades, pela maior parte da grande mídia, que tem um histórico muito preciso de desestabilização de governos populares. Também, foi deflagrada uma campanha de ódio contra o presidente pelas figuras mais tortuosas do Poder Legislativo.

Golpe contra quem

O golpe “parcial” do presidente do STF afeta dois poderes:

1. O Executivo. (a) Não há, neste momento, nenhuma dúvida de que o presidente tinha atributos legais para decidir em favor ou contra o ato de extradição. (b) A prisão de um extraditando só pode ser mantida durante o tempo que dure o processo. Se este acabar com a decisão favorável ao país requerente, o extraditando permanecerá preso até ser embarcado; se o processo culminar na rejeição, como neste caso, deve ser liberado. (c) O ministro Peluso, ao se recusar a liberar o ex-extraditando, nega a validade da decisão do presidente, numa manifestação de desacato.

2. O próprio STF. No fundo, é o poder judicial o mais profundamente atacado. Vejamos. (a) O STF, por maioria, decidiu pela faculdade do presidente a decidir a favor ou contra a extradição, desde que respeitado o Tratado. (b) O parecer da AGU se baseia de maneira nítida no artigo 3.I.f desse Tratado, evidenciando que a situação de Battisti se agravaria na Itália. (c) Sendo que Lula agiu em estrito acatamento ao parecer da AGU, e este se baseia de maneira notória no tratado, as condições exigidas pelo STF estão cumpridas.


O presidente foi autorizado pelo STF a proferir a palavra final sobre a extradição. Se o STF pretende questionar sua decisão e rever o assunto, é claro que a palavra não será final. Chama-se final àquele estágio após o qual não há nenhum outro!

Ao usurpar a tarefa do presidente, o ministro Peluso está (1) invadindo a área de incumbência do executivo, e (2) ALTERANDO a decisão do STF.

Responsabilidade dos ministros do STF

Na mesma forma que outras autoridades, os ministros do Supremo Tribunal Federal podem incorrer em crimes de responsabilidade. Os crimes de responsabilidade foram elencados na Lei 1079, de 10 de abril de 1950. Na Parte III, Título I, Capítulo I, se mencionam vários tipos de crimes aplicáveis a ministros do SPF. Em nosso caso, interessa apenas o primeiro. [Os grifos são meus]
Art. 39. São crimes de responsabilidade dos Ministros do Supremo Tribunal Federal:
1- alterar, por qualquer forma, exceto por via de recurso, a decisão ou voto já proferido em sessão do Tribunal;

Esta lei nunca foi derrogada, e embora alguns de seus artigos fossem absorvidos pela Lei 10.028, de 19 de outubro de 2000, o artigo 39 nunca perdeu sua validade. A pouca frequência de sua aplicação se deve, em parte, a que raramente se cometem graves alterações nas decisões do tribunal.

Impugnação

Como qualquer outro ato fora da lei, a alteração de uma decisão jurídica pode ter diversos graus de gravidade. Obviamente, cabe aos juristas e não aos ativistas de direitos humanos, avaliar essa gravidade. No entanto, desde minha perspectiva de leigo, acredito que neste caso a alteração é muito grave e que, aliás, independe de ser um caso de extradição ou de qualquer outra natureza. Observemos:

1. Quando se discutiu no plenário do STF a faculdade do presidente da república para decidir, os ministros Peluso e Mendes aduziram que o assunto era confuso, e, especialmente Peluso, tentou forçar a decisão e confundir os que votavam em favor do chefe de estado.

2. Quando se percebeu vencido, Peluso proferiu uma evidente ameaça. Ele disse que se Battisti fosse mantido no Brasil por decisão do governo, quem tiraria ele da prisão?.

3. O mais importante é que a negativa de Peluso a aceitar a decisão do Executivo é uma alteração notória, que tira credibilidade ao Judiciário, e gera na cidadania um sentimento de insegurança jurídica.

Em outros casos (muitos poucos, é verdade), houve reações da cidadania para impugnar alguns juízes. Embora esses casos pareciam justificados, eles deram lugar a longas polêmicas. Ora, quero enfatizar que desde minha visão não especializada do problema, entendo que a alteração da decisão da corte por parte de Peluso não é um ato polêmico. É uma manipulação pública, vista por milhões de pessoas, da decisão emitida pelo próprio Tribunal.

Desejo encerrar este artigo como uma pergunta dirigida aos que possuem formação jurídica. Não será que este ato justifica a impugnação (impeachment) do presidente do STF?

Finalmente: lembrem Honduras...

*Professor aposentado da Unicamp, militante da Anistia Internacional

Brasil lidera economia da cultura na AL

País é o que mais exporta e importa bens e serviços da indústria criativa e tem o maior superávit da América Latina, diz relatório

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da PrimaPagina

O Brasil é o país da América Latina com o maior saldo positivo no comércio exterior de produtos e serviços ligados à indústria criativa – que abrange áreas tradicionais da cultura (como música, TV, cinema e artes plásticas), mas também artesanato, comunicação, design, arquitetura e itens ligados às novas tecnologias. Em 2008, as exportações brasileiras superaram as importações em US$ 1,74 bilhão, segundo o Relatório de Economia Criativa de 2010, publicado pelo PNUD e pela UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento).

Das 13 nações da região com volumes mais expressivos de fluxo comercial nessa área, apenas quatro registraram superávit: Peru (US$ 251 milhões), Argentina (US$ 55 milhões) e Bolívia (US$ 4 milhões), além do Brasil. Os maiores déficits são de Venezuela (US$ 2,19 bilhões) e México (US$ 1,51 bilhão).

Ao longo dos seis anos analisados no estudo, o Brasil aumentou tanto o volume de exportação quanto o de importação de bens e serviços ligados à indústria criativa. Mas o grande responsável pelo resultado brasileiro são os serviços, cujo superávit saltou de US$ 477 milhões em 2002 para US$ 2,24 bilhões, em 2008.

No período analisado, o país foi sempre o que mais importou e mais exportou serviços da indústria criativa na América Latina, e registrou superávit todos os anos. O segmento que mais alavanca as exportações é o arquitetônico, que em 2008 respondeu por 88% das vendas (US$ 5,59 bilhões) e 71% das compras (US$ 2,92 bilhões).

Nos produtos o cenário é um pouco diferente. O Brasil tem grande participação nessa área, mas fica atrás do México – as exportações mexicanas alcançaram US$ 5,17 bilhões, e as brasileiras, US$ 1,2 bilhão. O país vizinho aos Estados Unidos, contudo, também importa mais (US$ 6,54 bilhões em 2008, contra US$ 1,72 bilhão do Brasil) e tem déficit maior. A balança comercial brasileira de produtos da indústria criativa vinha sendo positiva até 2007, mas ficou no vermelho em 2008 (déficit de US$ 506 milhões).

Carnaval

O estudo da UNCTAD e do PNUD afirma que o Carnaval é um dos principais impulsionadores da indústria criativa no Brasil. O impacto se dá pela "produção direta de artigos e performances gravadas para a venda para a população local e aos turistas, e pelos efeitos indiretos dos gastos dos turistas cujas visitas foram estimuladas pelo Carnaval".

A festa ajuda ainda a desenvolver as habilidades dos artistas locais, e impulsiona a venda de produtos e de negócios elaborados por conta da celebração. "O Carnaval oferece uma concentração de performances de música e dança ao vivo e gravadas que têm um significado cultural considerável para o público nacional e internacional", destaca o relatório.

Uma pesquisa, mencionada no estudo, sobre a cadeia associada ao Carnaval no Rio de Janeiro aponta que a festa, com retorno anual estimado em US$ 600 milhões, emprega quase meio milhão de pessoas e tem impacto direto e indireto na economia, não apenas da cidade, mas do estado.

Outra contribuição para o aumento das exportações de bens e serviços criativos na América Latina foi a retomada da produção cinematográfica na região, particularmente em Argentina, Brasil e México. Porém, o relatório avalia que os filmes nacionais continuam lutando por um espaço na tela com os grandes sucessos estrangeiros. Raramente ficam entre os dez mais vistos nos países, e a participação deles no mercado fica bem atrás das produções internacionais.

A novela é outro produto que ajuda a impulsionar a economia criativa latino-americana. "Na produção televisiva, há casos de sucesso, como a Televisa, no México, e a TV Globo, que são os maiores exportadores de programas de televisão – em sua maioria, novelas – para mercados mundiais", diz o texto.

Cuba registra primeira vacina terapêutica contra câncer de pulmão

HAVANA, (AFP) - Cuba registrou a primeira vacina terapêutica contra o câncer de pulmão, após testar sua eficácia em mais de mil pacientes sem que tenham ocorrido efeitos colaterais, informou esta segunda-feira uma autoridade científica.

"Foram mais de 15 anos de pesquisas", disse ao semanário 'Trabajadores' Gisela González, chefe do projeto desta vacina - denominada CIMAVAX-EFG -, cujo objetivo é transformar o câncer de pulmão avançado em uma doença crônica controlável.

O registro permite usar a vacina maciçamente no país, bem como nos mil pacientes aos quais foi administrada durante os testes, e "atualmente seu registro avança em outras nações", disse a especialista.

"Uma vez que o paciente termina o tratamento com radioterapia ou quimioterapia e é considerado um paciente terminal sem alternativa terapêutica, neste momento é aplicada a vacina, que ajuda a controlar o crescimento do tumor sem toxicidade associada, e pode ser usada como um tratamento crônico que aumenta a expectativa e a qualidade de vida do paciente", ressaltou.

A vacina "está baseada em uma proteína que todos temos: o fator de crescimento epidérmico", acrescentou González.

"Igualmente se avalia a forma de empregar o princípio desta vacina em outros tumores sólidos (em próstata, útero e mama), que podem ser alvo deste tipo de terapia. Existem resultados importantes, mas é preciso esperar", concluiu.